{"id":179,"date":"2010-06-29T12:12:44","date_gmt":"2010-06-29T12:12:44","guid":{"rendered":"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/?p=179"},"modified":"2011-08-11T08:51:46","modified_gmt":"2011-08-11T11:51:46","slug":"ritos-corporais-entre-os-nacirema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/?p=179","title":{"rendered":"RITOS CORPORAIS ENTRE OS NACIREMA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Horace Miner<br \/>\nIn: A.K. Rooney e P.L. de Vore (orgs)<br \/>\nYOU AND THE OTHERS &#8211; Readings in Introductory Anthropology<br \/>\n(Cambridge, Erlich)<br \/>\n1976<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O antrop\u00f3logo est\u00e1 t\u00e3o familiarizado com a diversidade das formas de comportamento que diferentes povos apresentam em situa\u00e7\u00f5es semelhantes, que \u00e9 incapaz de surpreender-se mesmo em face dos costumes mais ex\u00f3ticos. De fato, se nem todas as as combina\u00e7\u00f5es logicamente poss\u00edveis de comportamento foram ainda descobertas, o antrop\u00f3logo bem pode conjeturar que elas devam existir em alguma tribo ainda n\u00e3o descrita.<\/p>\n<p>Deste ponto de vista, as cren\u00e7as e pr\u00e1ticas m\u00e1gicas dos Nacirema apresentam aspectos t\u00e3o inusitados que parece apropriado descrev\u00ea-los como exemplo dos extremos a que pode chegar o comportamento humano. Foi o Professor Linton, em 1936, o primeiro a chamar a aten\u00e7\u00e3o dos antrop\u00f3logos para os rituais dos Nacirema, mas a cultura desse povo permanece insuficientemente compreendida ainda hoje.<\/p>\n<p>Trata-se de um grupo norte-americano que vive no territ\u00f3rio entre os Cree do Canad\u00e1, os Yaqui e os Tarahumare do M\u00e9xico, e os Carib e Arawak das Antilhas. Pouco se sabe sobre sua origem, embora a tradi\u00e7\u00e3o relate que vieram do leste. Conforme a mitologia dos Nacirema, um her\u00f3i cultural, Notgnihsaw, deu origem\u00a0 \u00e0 sua na\u00e7\u00e3o; ele \u00e9, por outro lado, conhecido por duas fa\u00e7anhas de for\u00e7a: ter atirado um colar de conchas, usado pelos Nacirema como dinheiro, atrav\u00e9s do rio Po- To- Mac e ter derrubado uma cerejeira na qual residiria o Esp\u00edrito da Verdade.<\/p>\n<p>A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que evolui em um rico habitat. Apesar do povo dedicar muito do seu tempo \u00e0s atividades econ\u00f4micas, uma grande parte dos frutos deste trabalho e uma consider\u00e1vel por\u00e7\u00e3o do dia s\u00e3o dispensados\u00a0 em atividades rituais. O foco destas atividades \u00e9 o corpo humano, cuja apar\u00eancia e sa\u00fade surgem como o interesse dominante no ethos deste povo. Embora tal tipo de interesse n\u00e3o seja, por certo, raro, seus aspectos cerimoniais e a filosofia a eles associadas s\u00e3o singulares.<\/p>\n<p>A cren\u00e7a fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano \u00e9 repugnante e que sua tend\u00eancia natural\u00a0 \u00e9 para a debilidade e a doen\u00e7a. Encarcerado em tal corpo, a \u00fanica esperan\u00e7a do homem \u00e9 desviar estas caracter\u00edsticas atrav\u00e9s do uso das poderosas influ\u00eancias do ritual e do cerimonial. Cada moradia tem um ou mais santu\u00e1rios devotados a este prop\u00f3sito. Os indiv\u00edduos mais poderosos desta sociedade t\u00eam muitos santu\u00e1rios em suas casas e, de fato, a alus\u00e3o\u00a0 \u00e0 opul\u00eancia de uma casa, muito freq\u00fcentemente, \u00e9 feita em termos do n\u00famero de tais centros rituais que possua. Muitas casas s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es de madeira, toscamente pintadas, mas as c\u00e2meras de culto das mais ricas t\u00eam paredes de pedra. As fam\u00edlias mais pobres imitam as ricas, aplicando placas de cer\u00e2mica\u00a0 \u00e0s paredes de seu santu\u00e1rio.<\/p>\n<p>Embora cada fam\u00edlia tenha pelo menos um de tais santu\u00e1rios, os rituais a eles associados n\u00e3o s\u00e3o cerim\u00f4nias familiares, mas sim cerim\u00f4nias privadas e secretas. Os ritos, normalmente, s\u00e3o discutidos apenas com as crian\u00e7as e, neste caso, somente durante o per\u00edodo em que est\u00e3o sendo iniciadas em seus mist\u00e9rios. Eu pude, contudo, estabelecer contato suficiente com os nativos para examinar estes santu\u00e1rios e obter descri\u00e7\u00f5es dos rituais.<\/p>\n<p>O ponto focal do santu\u00e1rio \u00e9 uma caixa ou cofre embutido na parede. Neste cofre s\u00e3o guardados os in\u00fameros encantamentos e po\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas sem os quais nenhum nativo acredita que poderia viver. Tais preparados s\u00e3o conseguidos atrav\u00e9s de uma serie de profissionais especializados, os mais poderosos dos quais s\u00e3o os m\u00e9dicos-feiticeiros, cujo auxilio deve ser recompensado com d\u00e1divas substanciais. Contudo, os m\u00e9dicos-feiticeiros n\u00e3o fornecem a seus clientes as po\u00e7\u00f5es de cura; somente decidem quais devem ser seus ingredientes e ent\u00e3o os escrevem em sua linguagem antiga e secreta. Esta escrita \u00e9 entendida apenas pelos m\u00e9dicos-feiticeiros e pelos ervat\u00e1rios, os quais, em troca de outra dadiva, providenciam o encantamento necess\u00e1rio. Os Nacirema n\u00e3o se desfazem do encantamento ap\u00f3s seu uso, mas os colocam na caixa-de-encantamento do santu\u00e1rio dom\u00e9stico. Como tais subst\u00e2ncias m\u00e1gicas s\u00e3o especificas para certas doen\u00e7as e as doen\u00e7as do povo, reais ou imagin\u00e1rias, s\u00e3o muitas, a caixa-de-encantamentos est\u00e1 geralmente a ponto de transbordar. Os pacotes m\u00e1gicos s\u00e3o t\u00e3o numerosos que as pessoas esquecem quais s\u00e3o suas finalidades e temem us\u00e1-los de novo. Embora os nativos sejam muito vagos quanto a este aspecto, s\u00f3 podemos concluir que aquilo que os leva a conservar todas as velhas subst\u00e2ncias \u00e9 a id\u00e9ia de que sua presen\u00e7a na caixa-de-encantamentos, em frente \u00e0 qual s\u00e3o efetuados os ritos corporais, ir\u00e1, de alguma forma, proteger o adorador.<\/p>\n<p>Abaixo da caixa-de-encantamentos existe uma pequena pia batismal. Todos os dias cada membro da fam\u00edlia, um ap\u00f3s o outro, entra no\u00a0 santu\u00e1rio, inclina sua fronte ante a caixa-de-encantamentos, mistura diferentes tipos de \u00e1guas sagradas na pia batismal e procede a um breve rito de ablu\u00e7\u00e3o. As\u00a0 \u00e1guas sagradas v\u00eam do Templo da \u00c1gua da comunidade, onde os sacerdotes executam elaboradas cerim\u00f4nias para tornar o l\u00edquido ritualmente puro.<\/p>\n<p>Na hierarquia dos m\u00e1gicos profissionais, logo abaixo dos m\u00e9dicos-feiticeiros no que diz respeito ao prest\u00edgio, est\u00e3o os especialistas cuja designa\u00e7\u00e3o pode ser traduzida por &#8220;sagrados-homens-da-boca&#8221;. Os Nacirema t\u00eam um horror quase que patol\u00f3gico, e ao mesmo tempo fascina\u00e7\u00e3o, pela cavidade bucal, cujo estado acreditam ter uma influ\u00eancia sobre todas as rela\u00e7\u00f5es sociais. Acreditam que, se\u00a0 n\u00e3o fosse pelos rituais bucais seus dentes cairiam, seus amigos os abandonariam e seus namorados os rejeitariam. Acreditam tamb\u00e9m na\u00a0 exist\u00eancia de uma forte rela\u00e7\u00e3o entre as caracter\u00edsticas orais e as morais: Existe, por exemplo, uma ablu\u00e7\u00e3o ritual da boca para\u00a0 as crian\u00e7as que se sup\u00f5e aprimorar sua fibra moral.<\/p>\n<p>O ritual do corpo executado diariamente por cada Nacirema inclui\u00a0 um rito bucal. Apesar de serem t\u00e3o escrupulosos no cuidado bucal, este rito envolve uma pr\u00e1tica que choca o estrangeiro n\u00e3o iniciado, que s\u00f3 pode consider\u00e1-lo revoltante. Foi-me relatado que o ritual consiste na inser\u00e7\u00e3o de um pequeno feixe de cerdas de porco na boca juntamente com certos p\u00f3s m\u00e1gicos, e em moviment\u00e1-lo ent\u00e3o numa s\u00e9rie de gestos altamente formalizados. Al\u00e9m do ritual bucal privado, as pessoas procuram o mencionado sacerdote-da-boca uma ou duas vezes ao ano. Estes profissionais\u00a0 t\u00eam uma impressionante cole\u00e7\u00e3o de instrumentos, consistindo de brocas, furadores, sondas e aguilh\u00f5es. O uso destes objetos no exorcismo dos dem\u00f4nios bucais envolve, para o cliente, uma tortura ritual quase inacredit\u00e1vel.\u00a0 O sacerdote-da-boca abre a boca do cliente e, usando os instrumentos acima citados, alarga todas as cavidades que a degenera\u00e7\u00e3o possa ter produzido nos dentes. Nestas cavidades s\u00e3o colocadas subst\u00e2ncias m\u00e1gicas. Caso n\u00e3o existam cavidades naturais nos dentes, grandes se\u00e7\u00f5es de um ou mais dentes s\u00e3o extirpadas\u00a0 para que a subst\u00e2ncia natural possa ser aplicada. Do ponto de vista do cliente, o prop\u00f3sito destas aplica\u00e7\u00f5es \u00e9 tolher a degenera\u00e7\u00e3o e\u00a0 atrair amigos. O car\u00e1ter extremamente sagrado e tradicional do rito evidencia-se pelo fato de os nativos voltarem ao sacerdote-da-boca ano ap\u00f3s ano, n\u00e3o obstante o fato de seus dentes continuarem a degenerar.<\/p>\n<p>Esperemos que quando for realizado um estudo completo dos Nacirema haja um inqu\u00e9rito cuidadoso sobre a estrutura da personalidade destas pessoas, Basta observar o fulgor nos olhos de um sacerdote-da- boca, quando ele enfia um furador num nervo exposto, para se suspeitar que este rito envolve certa dose de sadismo. Se isto puder ser provado, teremos um modelo muito interessante, pois a maioria da popula\u00e7\u00e3o demonstra tend\u00eancias masoquistas bem definidas.<\/p>\n<p>Foi a estas tend\u00eancias que o Prof. Linton (1936) se referiu na discuss\u00e3o de uma parte espec\u00edfica dos ritos corporal que \u00e9 desempenhada apenas por homens. Esta parte do rito envolve raspar e lacerar a superf\u00edcie da face com um instrumento afiado. Ritos especificamente femininos\u00a0 t\u00eam lugar apenas quatro vezes durante cada m\u00eas lunar, mas o que lhes falta em freq\u00fc\u00eancia \u00e9 compensado em barbaridade. Como parte desta cerim\u00f4nia, as mulheres usam colocar suas cabe\u00e7as em pequenos fornos por cerca de uma hora. O aspecto teoricamente interessante \u00e9 que um povo que parece ser preponderantemente masoquista tenha desenvolvido especialistas s\u00e1dicos.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos-feiticeiros t\u00eam um templo imponente, ou latipsoh, em cada comunidade de certo porte. As cerim\u00f4nias mais elaboradas, necess\u00e1rias para tratar de pacientes muito doentes, s\u00f3 podem ser executadas neste templo. Estas cerim\u00f4nias envolvem n\u00e3o apenas o taumaturgo, mas um grupo permanente de vestais que, com roupas e toucados espec\u00edficos, movimentam-se serenamente pelas c\u00e2maras do templo.<\/p>\n<p>As cerimonias latipsoh s\u00e3o t\u00e3o cru\u00e9is que \u00e9 de surpreender que uma boa propor\u00e7\u00e3o de nativos realmente doentes que entram no templo se recuperem. Sabe-se que as crian\u00e7as pequenas, cuja doutrina\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 incompleta, resistem\u00a0 \u00e0s tentativas de lev\u00e1-las ao templo, porque &#8220;\u00e9 l\u00e1 que se vai para morrer&#8221;. Apesar disto, adultos doentes n\u00e3o apenas querem mas anseiam por sofrer os prolongados rituais de purifica\u00e7\u00e3o, quando possuem recursos para tanto. N\u00e3o importa qu\u00e3o doente esteja o suplicante ou qu\u00e3o grave seja a emerg\u00eancia, os guardi\u00f5es de\u00a0 muitos templos n\u00e3o admitir\u00e3o um cliente se ele n\u00e3o puder dar uma\u00a0 d\u00e1diva valiosa para a administra\u00e7\u00e3o. Mesmo depois de ter-se conseguido a admiss\u00e3o, e sobrevivido \u00e0s cerim\u00f4nias, os guardi\u00e3es n\u00e3o permitir\u00e3o ao ne\u00f3fito abandonar o local se ele n\u00e3o fizer outra doa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O suplicante que entra no templo \u00e9 primeiramente despido de todas as suas roupas. Na vida cotidiana o Nacirema evita a exposi\u00e7\u00e3o de seu corpo e de suas fun\u00e7\u00f5es naturais. As atividades excretoras e o banho, enquanto parte dos ritos corporais, s\u00e3o realizados apenas no segredo do santu\u00e1rio dom\u00e9stico. Da perda s\u00fabita do segredo do corpo quando da entrada no latipsoh, podem resultar traumas psicol\u00f3gicos. Um homem, cuja pr\u00f3pria esposa nunca o viu em um ato excretor, acha-se subitamente nu e auxiliado por uma vestal, enquanto executa suas fun\u00e7\u00f5es naturais num recipiente sagrado. Este tipo de tratamento cerimonial \u00e9 necess\u00e1rio porque os excreta s\u00e3o usados por um adivinho para averiguar o curso e a natureza da enfermidade do cliente. Clientes do sexo feminino, por sua vez, t\u00eam seus corpos nus submetidos ao escrut\u00ednio, manipula\u00e7\u00e3o e aguilhadas dos m\u00e9dicos-feiticeiros.<\/p>\n<p>Poucos suplicantes no templo est\u00e3o suficientemente bons para fazer qualquer coisa al\u00e9m de jazer em duros leitos. As cerim\u00f4nias di\u00e1rias, como os ritos do sacerdote-da-boca, envolvem desconforto e tortura. Com precis\u00e3o ritual as vestais despertam seus miser\u00e1veis fardos a cada madrugada e os rolam em seus leitos de dor enquanto executam ablu\u00e7\u00f5es, com os movimentos formais nos quais estas virgens s\u00e3o altamente treinadas. Em outras horas, elas inserem bast\u00f5es m\u00e1gicos na boca do suplicante ou o for\u00e7am a engolir subst\u00e2ncias que se sup\u00f5e serem curativas.<\/p>\n<p>De tempos em tempos o m\u00e9dico-feiticeiro vem ver seus clientes e espeta agulhas magicamente tratadas em sua carne. O fato de que estas cerim\u00f4nias do templo possam n\u00e3o curar, e possam mesmo matar o ne\u00f3fito, n\u00e3o diminui de modo algum a f\u00e9 das pessoas no m\u00e9dico feiticeiro.<\/p>\n<p>Resta ainda um outro tipo de profissional, conhecido como um &#8220;ouvinte&#8221;. Este &#8220;doutor-bruxo&#8221; tem o poder de exorcizar os dem\u00f4nios que se alojam nas cabe\u00e7as das pessoas enfeiti\u00e7adas. Os Nacirema acreditam que os pais enfeiti\u00e7am seus pr\u00f3prios filhos; particularmente, teme-se que as m\u00e3es lancem uma maldi\u00e7\u00e3o sobre as crian\u00e7as enquanto lhes ensinam os ritos corporais secretos. A contra-magia do doutor bruxo \u00e9 inusitada por sua car\u00eancia de ritual. O paciente simplesmente conta ao &#8220;ouvinte&#8221; todos os seus problemas e temores, principalmente pelas dificuldades iniciais que consegue rememorar. A mem\u00f3ria demonstrada pelos Nacirema\u00a0 nestas sess\u00f5es de exorcismo \u00e9 verdadeiramente not\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 incomum\u00a0 um paciente deplorar a rejei\u00e7\u00e3o que sentiu, quando beb\u00ea, ao ser desmamado, e uns poucos indiv\u00edduos reportam a origem de seus problemas aos feitos traum\u00e1ticos de seu pr\u00f3prio nascimento.<\/p>\n<p>Como conclus\u00e3o, deve-se fazer refer\u00eancia a certas pr\u00e1ticas que t\u00eam suas bases na est\u00e9tica nativa, mas que decorrem da avers\u00e3o profunda ao corpo natural e suas fun\u00e7\u00f5es. Existem jejuns rituais para tornar magras pessoas gordas, e banquetes cerimoniais para tornar gordas pessoas magras. Outros ritos s\u00e3o usados para tornar maiores os seios das mulheres que os t\u00eam pequenos e torn\u00e1-los menores quando s\u00e3o grandes. A insatisfa\u00e7\u00e3o geral com o tamanho do seio \u00e9 simbolizada no fato de a forma ideal estar virtualmente al\u00e9m da escala de varia\u00e7\u00e3o humana. Umas poucas mulheres, dotadas de um desenvolvimento hipermam\u00e1rio quase inumano, s\u00e3o t\u00e3o idolatradas que podem levar uma boa vida simplesmente indo de cidade em cidade e permitindo aos embasbacados nativos, em troca de uma taxa, contemplarem-nos.<\/p>\n<p>J\u00e1 fizemos refer\u00eancia ao fato de que as fun\u00e7\u00f5es excretoras s\u00e3o ritualizadas, rotinizadas e relegadas ao segredo. As fun\u00e7\u00f5es naturais de reprodu\u00e7\u00e3o s\u00e3o, da mesma forma, distorcidas. O intercurso sexual \u00e9 tabu enquanto assunto, e\u00a0 \u00e9 programado enquanto ato. S\u00e3o feitos esfor\u00e7os para evitar a gravidez, pelo uso de subst\u00e2ncias m\u00e1gicas ou pela limita\u00e7\u00e3o do intercurso sexual a certas fases da lua. A concep\u00e7\u00e3o \u00e9 na realidade, pouco freq\u00fcente. Quando gr\u00e1vidas as mulheres vestem-se de modo a esconder o estado. O parto tem lugar em segredo, sem amigos ou parentes para ajudar, e a maioria das mulheres n\u00e3o amamenta seus rebentos.<\/p>\n<p>Nossa an\u00e1lise da vida ritual dos Nacirema certamente demonstrou ser este povo dominado pela cren\u00e7a na magia. \u00c9 dif\u00edcil compreender como tal povo conseguiu sobreviver por t\u00e3o longo tempo sob a carga que imp\u00f4s sobre si mesmo. Mas at\u00e9 costumes t\u00e3o ex\u00f3ticos quanto estes aqui descritos ganham seu real significado quando s\u00e3o encarados sob o \u00e2ngulo relevado por Malinowski, quando escreveu:<\/p>\n<p>&#8220;Olhando de longe e de cima de nossos altos postos de seguran\u00e7a na civiliza\u00e7\u00e3o desenvolvida, \u00e9 f\u00e1cil perceber toda a crueza e irrelev\u00e2ncia da magia. Mas sem seu poder de orienta\u00e7\u00e3o, o homem primitivo n\u00e3o poderia ter dominado, como o f\u00eaz, suas dificuldades pr\u00e1ticas, nem poderia ter avan\u00e7ado aos est\u00e1gios mais altos da civiliza\u00e7\u00e3o&#8221;<\/p>\n<p><em> (nota: para quem n\u00e3o percebeu, Nacirema \u00e9 American, de tr\u00e1s para a frente &#8211; R.A.)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Horace Miner In: A.K. 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