{"id":18,"date":"2005-06-28T14:36:10","date_gmt":"2005-06-28T14:36:10","guid":{"rendered":"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/?p=18"},"modified":"2014-03-02T22:54:44","modified_gmt":"2014-03-03T01:54:44","slug":"a-rosa-de-paracelso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/?p=18","title":{"rendered":"A Rosa de Paracelso"},"content":{"rendered":"<p>Resolvi postar um texto que foi enviado internamente pela lista do CIH, e cujo profundo significado deve calar em nossos esp\u00ed\u00adritos. Como considero esse material refer\u00eancia para exemplificar certos ensinamentos, apesar de ser uma cita\u00e7\u00e3o, merece figurar entre o material deste blog, na categoria de instru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em L.L.L.L.,<\/p>\n<p>Fr. Goya<\/p>\n<p>Ank &#8211; Usa &#8211; Semb<\/p>\n<p>Por: <strong>Jorge Luis Borges<\/strong><br \/>\nDe Quincey: Writings, XIII, 345<\/p>\n<p>Em sua oficina, que abarcava os dois c\u00f4modos do por\u00e3o, Paracelso pediu a seu\u00a0Deus, a seu indeterminado Deus, a qualquer Deus, que lhe enviasse um disc\u00ed\u00adpulo.<\/p>\n<p>Entardecia. O escasso fogo da lareira arrojava sombras irregulares. Levantar-se \u00a0para acender a l\u00e2mpada de ferro era demasiado trabalho. Paracelso, distra\u00ed\u00addo\u00a0pela fadiga, esqueceu-se de sua prece. A noite havia apagado os empoeirados\u00a0alambiques e o atanor quando bateram \u00e0 porta. O homem, sonolento, levantou-se,\u00a0subiu a breve escada de caracol e abriu uma das portadas. Entrou um\u00a0desconhecido. Tamb\u00e9m estava muito cansado. Paracelso lhe indicou um banco; o\u00a0outro sentou-se e esperou. Durante um tempo n\u00e3o trocaram uma palavra.<\/p>\n<p>O mestre foi o primeiro que falou:<\/p>\n<p>&#8211; Lembro-me de caras do Ocidente e de caras do Oriente &#8211; falou, n\u00e3o sem certa\u00a0pompa &#8211; N\u00e3o me lembro da tua. Quem \u00e9s e que desejas de mim?<\/p>\n<p>&#8211; O meu nome n\u00e3o importa &#8211; replicou o outro &#8211; Tr\u00eas dias e tr\u00eas noites tenho\u00a0caminhado para entrar em tua casa. Quero ser teu disc\u00ed\u00adpulo. Trago-te todos os\u00a0meus bens &#8211; e tirou um taleigo que colocou sobre a mesa. As moedas eram muitas e\u00a0de ouro.<\/p>\n<p>F\u00ea-lo com a m\u00e3o direita. Paracelso lhe havia dado as costas para acender a\u00a0l\u00e2mpada. Quando se voltou, viu que na m\u00e3o esquerda ele segurava uma rosa, que o\u00a0inquietou. Recostou-se, juntou as pontas dos dedos e falou:<\/p>\n<p>&#8211; Acreditas que sou capaz de elaborar a pedra que transforma todos os elementos\u00a0em ouro e ofereces-me ouro. N\u00e3o \u00e9 ouro o que procuro, e se o ouro te importa,\u00a0n\u00e3o ser\u00e1s meu disc\u00ed\u00adpulo.<\/p>\n<p>&#8211; O ouro n\u00e3o me importa &#8211; respondeu o outro. &#8211; Essas moedas n\u00e3o s\u00e3o mais do que\u00a0uma parte da minha vontade de trabalho. Quero que me ensines a Arte; quero\u00a0percorrer a teu lado o caminho que conduz \u00e0 Pedra.<\/p>\n<p>Paracelso falou devagar:<\/p>\n<p>&#8211; O caminho \u00e9 a Pedra. O ponto de partida \u00e9 a Pedra. Se n\u00e3o entendes estas\u00a0palavras, nada entendes ainda. Cada passo que deres \u00e9 a meta.<\/p>\n<p>O outro o olhou com receio. Falou com voz diferente:<\/p>\n<p>&#8211; Mas, h\u00e1 uma meta?<\/p>\n<p>Paracelso riu-se.<\/p>\n<p>&#8211; Os meus difamadores, que n\u00e3o s\u00e3o menos numerosos que est\u00fapidos, dizem que n\u00e3o,\u00a0e me chamam de impostor. N\u00e3o lhes dou raz\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 imposs\u00ed\u00advel que seja uma\u00a0ilus\u00e3o. Sei que h\u00e1 um Caminho.<\/p>\n<p>&#8211; Estou pronto a percorr\u00ea-lo contigo, ainda que devamos caminhar muitos anos.\u00a0Deixa-me cruzar o deserto. Deixa-me divisar, ao menos de longe, a terra\u00a0prometida, ainda que os astros n\u00e3o me deixem pis\u00e1-la. Mas quero uma prova antes\u00a0de empreender o caminho.<\/p>\n<p>&#8211; Quando? &#8211; falou com inquietude Paracelso.<\/p>\n<p>&#8211; Agora mesmo &#8211; respondeu com brusca decis\u00e3o o disc\u00ed\u00adpulo.<\/p>\n<p>Haviam come\u00e7ado a conversa em latim; agora falavam em alem\u00e3o. O garoto elevou no\u00a0ar a rosa.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade &#8211; falou &#8211; que podes queimar uma rosa e faz\u00ea-la ressurgir das cinzas,\u00a0por obra da tua Arte. Deixa-me ser testemunha desse prod\u00ed\u00adgio. Isso te pe\u00e7o, e te\u00a0dedicarei, depois, a minha vida inteira.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9s muito cr\u00e9dulo &#8211; disse o mestre &#8211; N\u00e3o \u00e9s o menestrel da credulidade. Exijo a\u00a0F\u00e9!<\/p>\n<p>O outro insistiu.<\/p>\n<p>&#8211; Precisamente por n\u00e3o ser cr\u00e9dulo, quero ver com os meus olhos a aniquila\u00e7\u00e3o e\u00a0a ressurrei\u00e7\u00e3o da rosa.<\/p>\n<p>Paracelso a havia tomado e ao falar, brincava com ela.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9s um cr\u00e9dulo &#8211; disse. &#8211; Perguntas-me se sou capaz de destru\u00ed\u00ad-la?<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m \u00e9 incapaz de destru\u00ed\u00ad-la &#8211; falou o disc\u00ed\u00adpulo.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s equivocado. Acreditas, porventura, que algo pode ser devolvido ao nada?<br \/>\nAcreditas que o primeiro Ad\u00e3o no Para\u00ed\u00adso pode haver destru\u00ed\u00addo uma s\u00f3 flor ou uma\u00a0s\u00f3 palha de erva?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o estamos no Para\u00ed\u00adso &#8211; respondeu teimosamente o mo\u00e7o &#8211; Aqui, abaixo da lua,\u00a0tudo \u00e9 mortal.<\/p>\n<p>Paracelso se havia posto em p\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Em que outro lugar estamos? Acreditas que a divindade pode criar um lugar que\u00a0n\u00e3o seja o Para\u00ed\u00adso? Acreditas que a Queda seja outra coisa que ignorar que\u00a0estamos no Para\u00ed\u00adso?<\/p>\n<p>&#8211; Uma rosa pode queimar-se &#8211; falou, com insol\u00eancia, o disc\u00ed\u00adpulo.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda fica o fogo na lareira &#8211; disse Paracelso &#8211; Se atiras esta rosa \u00e0s\u00a0brasas, acreditar\u00e1s que tenha sido consumida e que a cinza \u00e9 verdadeira.\u00a0Digo-te que a rosa \u00e9 eterna e que s\u00f3 a sua apar\u00eancia pode mudar. Bastar-me-ia\u00a0uma palavra para que a visse de novo.<\/p>\n<p>&#8211; Uma palavra? &#8211; perguntou com estranheza o disc\u00ed\u00adpulo &#8211; O atanor est\u00e1 apagado e\u00a0est\u00e3o cheios de p\u00f3 os alambiques. O que far\u00e1s para que ressurgissem?<\/p>\n<p>Paracelso olhou-o com tristeza.<\/p>\n<p>&#8211; O atanor est\u00e1 apagado &#8211; reiterou &#8211; e est\u00e3o cheios de p\u00f3 os alambiques. Nesta\u00a0etapa de minha longa jornada uso outros instrumentos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me atrevo a perguntar quais s\u00e3o &#8211; falou o mo\u00e7o, deixando Paracelso na\u00a0d\u00favida se foi com ast\u00facia ou com humildade. E continuou &#8211; Falastes do que usou a\u00a0divindade para criar os c\u00e9us e a terra. Falastes do invis\u00edvel Para\u00ed\u00adso em que\u00a0estamos e que o pecado original nos oculta. Falastes da Palavra que nos ensina a\u00a0ci\u00eancia da Cabala. Pe\u00e7o-te, agora, a merc\u00ea de mostrar-me o desaparecimento e o\u00a0aparecimento da rosa. N\u00e3o me importa que operes com alambiques ou com o Verbo.<\/p>\n<p>Paracelso refletiu. Depois disse:<\/p>\n<p>&#8211; Se eu o fizesse, dir\u00e1s que se trata de uma apar\u00eancia imposta pela magia dos\u00a0teus olhos. O prod\u00ed\u00adgio n\u00e3o te daria a F\u00e9 que buscas: Deixa, pois, a Rosa.<\/p>\n<p>O jovem o olhou, sempre receoso. O mestre elevou a voz e lhe disse:<\/p>\n<p>&#8211; Al\u00e9m disso, quem \u00e9s tu para entrar na casa de um mestre e exigir um prod\u00ed\u00adgio?\u00a0Que fizeste para merecer semelhante dom?<\/p>\n<p>O outro replicou, temeroso:<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 que nada tenho feito, pe\u00e7o-te, em nome dos muitos anos que estudarei \u00e0 tua\u00a0sombra, que me deixes ver a cinza, e depois a Rosa. N\u00e3o te pedirei mais nada.\u00a0Acreditarei no testemunho dos meus olhos.<\/p>\n<p>Tomou com brusquid\u00e3o a rosa encarnada que Paracelso havia deixado sobre a\u00a0cadeira e a atirou \u00e0s chamas. A cor se perdeu e s\u00f3 ficou um pouco de cinza.\u00a0Durante um instante infinito, esperou as palavras e o milagre.<\/p>\n<p>Paracelso n\u00e3o havia se alterado. Falou com curiosa clareza:<\/p>\n<p>&#8211; Todos os m\u00e9dicos e todos os botic\u00e1rios de Basil\u00e9ia afirmam que sou um\u00a0farsante. Talvez eles estejam certos. A\u00ed\u00ad est\u00e1 a cinza que foi a rosa e que n\u00e3o o\u00a0ser\u00e1.<\/p>\n<p>O jovem sentiu vergonha. Paracelso era um charlat\u00e3o ou um mero vision\u00e1rio e ele,\u00a0um intruso que havia franqueado a sua porta e o obrigava agora a confessar que\u00a0as suas famosas artes m\u00e1gicas eram v\u00e3s.<\/p>\n<p>Ajoelhou-se, e falou:<\/p>\n<p>&#8211; Tenho agido de maneira imperdo\u00e1vel. Tem-me faltado a F\u00e9 que exiges dos\u00a0crentes. Deixa-me continuar a ver as cinzas. Voltarei quando for mais forte e\u00a0serei teu disc\u00ed\u00adpulo e no final do Caminho, verei a Rosa.<\/p>\n<p>Falava com genu\u00ed\u00adna paix\u00e3o, mas essa paix\u00e3o era a piedade que lhe inspirava o\u00a0velho mestre, t\u00e3o venerado, t\u00e3o agredido, t\u00e3o insigne e portanto t\u00e3o oco. Quem\u00a0era ele, Johannes Grisebach, para descobrir com m\u00e3o sacr\u00ed\u00adlega que detr\u00e1s da\u00a0m\u00e1scara n\u00e3o havia ningu\u00e9m? Deixar-lhe as moedas de ouro seria esmola. Retomou-as\u00a0ao sair.<\/p>\n<p>Paracelso acompanhou-o at\u00e9 ao p\u00e9 da escada e disse-lhe que em sua casa seria\u00a0sempre bem-vindo. Ambos sabiam que n\u00e3o voltariam a ver-se. Paracelso ficou s\u00f3.\u00a0Antes de apagar a l\u00e2mpada e de se recostar na velha cadeira de bra\u00e7os, derramou\u00a0o t\u00eanue punhado de cinza na m\u00e3o c\u00f4ncava e pronunciou uma palavra em voz baixa. A\u00a0Rosa ressurgiu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resolvi postar um texto que foi enviado internamente pela lista do CIH, e cujo profundo significado deve calar em nossos esp\u00ed\u00adritos. Como considero esse material refer\u00eancia para exemplificar certos ensinamentos, apesar de ser uma cita\u00e7\u00e3o, merece figurar entre o material deste blog, na categoria de instru\u00e7\u00f5es. Em L.L.L.L., Fr. 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