{"id":207,"date":"2011-08-11T08:47:13","date_gmt":"2011-08-11T11:47:13","guid":{"rendered":"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/?p=207"},"modified":"2011-08-11T08:50:21","modified_gmt":"2011-08-11T11:50:21","slug":"o-vento-de-djemila","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/?p=207","title":{"rendered":"O Vento de Djemila"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 lugares em que o esp\u00edrito morre a bem de uma verdade que ele nunca nega. Quando fui a Djemila, imperava um sil\u00eancio premente sobre tudo &#8211; im\u00f3vel como pratos equilibrados de uma balan\u00e7a. Alguns gritos de p\u00e1ssaros, os sons abafados de uma flauta com tr\u00eas furos, os passinhos mi\u00fados das cabras &#8211; todos esses ru\u00eddos me trouxeram pela primeira vez \u00e0 consci\u00eancia o sil\u00eancio e o desconsolo do lugar. De vez em quando, o ruflar das asas de um  p\u00e1ssaro que levantava v\u00f4o nas ru\u00ednas. Cada caminho, cada trilha entre restos de casas, as grandes ruas cal\u00e7adas entre as colunas brilhantes, o for\u00fam num antiplano entre o Arco do Triunfo e o Templo &#8211; tudo terminava naqueles abismos que cercam Djemila por todos os  lados, que se espraia como se fosse um baralho com cartas esparramadas sob o c\u00e9u infinito.<br \/>\nE l\u00e1, nos sentimos s\u00f3s e cercados pelo sil\u00eancio e pelas pedras; o dia passa, as montanhas parecem crescer e tornam-se cor de violeta. Mas o vento sopra o planalto de Djemila. No meio dessa magnifica confus\u00e3o de sol e vento, e de ru\u00ednas banhadas de luz, o passado silencioso da cidade morta se infiltra cada vez mais nos homens e os deprime. <\/p>\n<p>\u00c9 preciso tempo para chegar a Djemila. N\u00e3o \u00e9 uma cidade na qual se para no intuito de prosseguir viagem depois. Djemila n\u00e3o leva a lugar algum e n\u00e3o h\u00e1 paisagens para ver. Trata-se de um lugar que se abandona logo. A cidade morta fica no fim de uma longa estrada sinuosa, que parece n\u00e3o ter fim e que, por essa raz\u00e3o, parece t\u00e3o cansativamente  longa. Afinal. bem no meio das altas montanhas, sobre o planalto descorado, surge o esqueleto de uma floresta petrificada: Djemila, par\u00e1bola do vis\u00edvel vazio por toda parte, que s\u00f3 um cora\u00e7\u00e3o  batendo apaixonadamente no peito nos permite alcan\u00e7ar o mundo. L\u00e1 no meio de umas poucas \u00e1rvores, est\u00e1 a cidade morta, que se defende com todas as suas montanhas e ru\u00ednas contra a admira\u00e7\u00e3o barata, a incompreens\u00e3o pict\u00f3rica e os sonhos insensatos.<\/p>\n<p>Vagamos nesse brilho t\u00f3rrido durante todo o dia. Aos poucos surgiu o vento, que antes do meio dia mal dava para notar; ele parecia aumentar de intensidade a cada hora que passava e parecia encher todo pa\u00eds. Vinha de longe, de uma brecha entre as montanhas do lado leste, corria do horizonte nessa dire\u00e7\u00e3o e se arremessava em rajadas por entre ru\u00ednas banhadas de sol. Eu adejava como uma vela ao vento. Meu est\u00f4mago se contraiu; meus olhos ardiam, meus l\u00e1bios se racharam e minha pele ressecou at\u00e9 que mal a sentia. At\u00e9 esse momento era atrav\u00e9s dela que eu decifrava a escrita do mundo, os desenhos de sua benevol\u00eancia e de sua ira, quando o h\u00e1lito do ver\u00e3o a aquecia ou a geada com suas garras de frio a agredia. Mas agora, chicoteado e sacudido, ensurdecido e esgotado pelo vento, perdi a sensibilidade da superf\u00edcie que mantinha o meu corpo. O vento me erodia como a mar\u00e9 vazante e enchete faz com um pedregulho, e me desgastara at\u00e9 deixar minha alma a nu. Agora, eu apenas fazia parte daquela for\u00e7a que fazia de mim o que queria, e que cada vez se apossava de mim de maneira diferente, tomando posse  do meu ser at\u00e9 que, por fim, me poss\u00eda por inteiro. Eu lhe pertencia de tal modo que o meu sangue pulsava no seu ritmo e rumorejava como o cora\u00e7\u00e3o todo-poderoso da natureza presente em toda parte. O vento me transformou num pertence de minha deserta e t\u00f3rrida circunvizinhan\u00e7a; seu abra\u00e7o<br \/>\nfluido me petrificou at\u00e9 que eu, pedra sob pedras, fiquei solit\u00e1rio e im\u00f3vel como uma coluna ou uma oliveira sob o c\u00e9u ensolarado.<\/p>\n<p>O vento violento e o banho de sol esgotaram toda a minha for\u00e7a vital, que mal movia em mim suas asas impotentes, mal se esfor\u00e7ava por se queixar, que n\u00e3o se defendia. Finalmente, derramado em todos os ventos, me esqueci de tudo, at\u00e9 de mim mesmo, tornei-me esse vento lamuriento e essas colunas e esse arco, esse ladrilho brilhante e essas p\u00e1lidas montanhar ao redor da cidade abandonada. Nunca em toda a minha vida senti com tal intensidade ambas as coisas ao mesmo tempo: minha pr\u00f3pria dissolu\u00e7\u00e3o e minha presen\u00e7a neste mundo.<\/p>\n<p>Sim, eu existo; e cada vez fica mais claro que estou tocando um limite, como um homem aprisionado para o qual tudo existe; mas tamb\u00e9m como um homem que sabe que &#8220;amanh\u00e3&#8221; ser\u00e1 como &#8220;ontem&#8221;, e que um dia ser\u00e1 igual ao outro. Pois, quando um homem toma conhecimento de que existe, ele n\u00e3o espera mais nada. As paisagens mais banais refletem um estado de esp\u00edrito. Mas eu procurei neste pa\u00eds, por toda parte, algo n\u00e3o me pertencia, mas que partia dele; uma certa amizade com a morte, na qual nos entend\u00eassemos. Entre as colunas, que agora lan\u00e7am sombras enviesadas, meus medos se dissolveram como p\u00e1ssaros feridos na clara secura do ar. Todo medo prov\u00e9m de um cora\u00e7\u00e3o vivo; no entanto, cada cora\u00e7\u00e3o encontrar\u00e1 a paz; isso \u00e9 o que eu sei, e nada mais. Quanto mais o dia se aproxima do fim, tanto mais descorado e silencioso se torna o mundo sob a chuva de cinzas da escurid\u00e3o crescente; tanto mais perdido e impotente eu me sentia contra aquela revolta lenta e interior que diz &#8220;n\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Poucos homens entendem que existe uma recusa que nada tem que ver com ren\u00fancia. O que significam aqui palavras como futuro, profiss\u00e3o ou progresso, ou a evolu\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o? Quando obstinadamente n\u00e3o quero ouvir nada sobre &#8220;mais tarde&#8221;, isso acontece sobretudo porque n\u00e3o quero sem mais renunciar \u00e0 minha atual riqueza. Como um jovem, n\u00e3o quero acreditar que a morte representa o in\u00edcio de uma nova vida. <\/p>\n<p>Para mim, ela representa uma porta que se fecha. N\u00e3o digo: trata-se de um limiar que \u00e9 preciso transpor &#8211; para mim ela \u00e9 uma aventura terr\u00edvel e suja! Todos os argumentos que querem me impingir \u00e9 que ela tira o fardo que os homens carregam. No entanto, eu vejo o grande p\u00e1ssaro com seus volteios pesados circular sobre Djemila e pe\u00e7o por um determinado fardo de vida e o recebo. Apegar-me por inteiro a esse desejo: suport\u00e1-lo &#8211; o resto j\u00e1 n\u00e3o tem import\u00e2ncia. Sou jovem demais para falar a respeito da morte. Mas se fosse preciso &#8211; aqui eu encontraria a palavra certa, que entre o susto e o sil\u00eancio reconhece com clareza uma morte sem esperan\u00e7as. <\/p>\n<p>Vive-se com algumas poucas ideias conhecidas &#8211; duas ou tr\u00eas. Conforme a regi\u00e3o em que crescemos e as pessoas que encontramos, n\u00f5s as polimos e lhes damos outra apar\u00eancia. A fim de termos ideias pr\u00f3prias sobre as quais falar, precisamos de dez anos pelo menos. Enquanto isso, por\u00e9m, o homem vai se familiarizando com o lindo semblante do mundo. At\u00e9 ent\u00e3o, ele o encara de frente. Mas depois ele precisa dar um passo para o lado e observ\u00e1-lo de perfil. Contudo, um homem jovem encara o mundo de frente: ainda n\u00e3o teve tempo para se acostumar com ideias sobre a morte ou sobre o nada, embora \u00e0s vezes seja atormentado por elas. <\/p>\n<p>Mas juventude \u00e9 exatamente isso: esse amargo di\u00e1logo com a morte, esse medo f\u00edsico do animal que ama o sol.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que se afirma, a juventude n\u00e3o se preocupa com essas coisas. N\u00e3o tem tempo nem incinal\u00e3o para isso. Estranho: diante dessa paisagem montanhosa, diante dessa sombria solenidade do grito petrificado que se chama Djemila, diante dessa esperan\u00e7a morta e dessas cores esmaecidas, compreendo que, para um homem ter o valor de ser chamado de homem, ele tem de renovar esse di\u00e1logo com a morte, renegar suas poucas id\u00e9ias e redescobrir aquela inoc\u00eancia e corre\u00e7\u00e3o que brilhavam nos olhos dos homens antigos que enfrentavam livremente o seu destino. Ele reconquista a sua juventude, mas s\u00f3 na medida em que estender a m\u00e3o para a morte.<\/p>\n<p>Quanto desprezo pelas doen\u00e7as! A doen\u00e7a \u00e9 um rem\u00e9dio contra a morte, para a qual ela nos prepara. A primeira coisa que o aprendiz aprende na sua escola \u00e9 a autocompaix\u00e3o. Ela ajuda o ser humano em sua esfor\u00e7ada tentativa de se furtar \u00e0 certeza absoluta da morte. Mas eu vejo Djemila e sei: o \u00fanico progresso verdadeiro da cultura, que de tempos em tempos um homem realiza para si, est\u00e1 em morrer com consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Sempre fico espantado com o fato de nossas ideias sobre a morte serem t\u00e3o escassas, visto que nossos pensamentos se voltam celeremente em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es. A morte ou \u00e9 boa ou \u00e9 m\u00e1. Ou n\u00f3s a chamamos ou fugimos dela (como se diz). Mas isso tamb\u00e9m prova que o mais simples pensamento sobre a morte est\u00e1 al\u00e9m do nosso alcance. <\/p>\n<p>O que \u00e9 isso a que chamamos &#8220;azul&#8221;? Como podemos pensar sobre o azul? O mesmo vale para a morte. N\u00e3o podemos falar sobre cores ou sobre a morte. Digo para mim mesmo: preciso morrer; mas o que \u00e9 isso? N\u00e3o posso acreditar nisso, nem fazer a experi\u00eancia, a n\u00e3o ser nos outros. J\u00e1 vi pessoas e c\u00e3es morrerem. A coisa mais terr\u00edvel \u00e9 tocar neles. Nessas ocasi\u00f5es, penso em flores, no sorriso das mulheres, no amor  e compreendo que o meu medo \u00e0 morte nada mais \u00e9 que o oposto da minha vontade de viver. Tenho inveja de todos os que viver\u00e3o no futuro, e que sentir\u00e3o a verdade das flores e das mulheres na carne e no sangue. Sinto inveja, porque eu mesmo amo demais a vida e a amo com ego\u00edsmo predestinado. O que me importa a eternidade? Algum dia, talvez eu esteja preso a uma cama,  e algu\u00e9m dir\u00e1: &#8220;Vamos, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 covarde, portanto, serei franco. Morrer\u00e1 logo&#8221;. E l\u00e1 estarei deitado, com toda a minha vida, com todo o medo que me fecha a garganta, e olho para a pessoa completamente perplexo. O sangue aflui \u00e0 minha cabe\u00e7a e sinto minhas t\u00eamporas pulsarem. Provavelmente, destruirei a golpes tudo o que encontrar ao meu redor.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, os homens morrem contra a vontade. Dizemos ent\u00e3o a eles: &#8220;Quando voc\u00ea ficar bom&#8230;&#8221;, e depois eles morrem. Mas n\u00e3o quero isso. E, se a natureza at\u00e9 agora mentiu, tamb\u00e9m disse a verdade. Nessa noite, Djemila diz a verdade; e que triste, como sua beleza fala convincentemente! N\u00e3o quero mentir diante de mim nem diante do mundo; tamb\u00e9m n\u00e3o quero que me iludam. Quero ver com clareza at\u00e9 o fim e quero contemplar meu fim com toda a inveja e todo o medo que me sacodem. Quanto mais me separo do mundo e me apego ao destino dos homens vivos, em vez de olhar para o c\u00e9u eterno, tanto maior fica o meu medo de morrer. Morrer com consci\u00eancia significa: atravessar o abismo que se interp\u00f5e entre n\u00f3s e o mundo e, sem alegria e com consci\u00eancia, compreender que a beleza deste mundo acabou para sempre, aceitando o fim. E o canto lamentoso das colinas de Djemila arraiga profundamente na minha alma esse triste conhecimento.<\/p>\n<p>( Alberto Camus, O Casamento da Luz)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 lugares em que o esp\u00edrito morre a bem de uma verdade que ele nunca nega. Quando fui a Djemila, imperava um sil\u00eancio premente sobre tudo &#8211; im\u00f3vel como pratos equilibrados de uma balan\u00e7a. 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