{"id":265,"date":"2014-06-05T15:49:04","date_gmt":"2014-06-05T18:49:04","guid":{"rendered":"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/?p=265"},"modified":"2014-06-05T15:49:04","modified_gmt":"2014-06-05T18:49:04","slug":"um-companheiro-de-lucifer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/?p=265","title":{"rendered":"Um Companheiro de L\u00facifer"},"content":{"rendered":"<p>Por Jacques Mousseau &#8211; Revista Planeta, n\u00ba007, 1973<\/p>\n<p>Os pactos com o diabo existem. Aleister Crowley fez um. Ele se chamava a si mesmo de &#8220;A Besta&#8221;. Era prodigiosamente inteligente e diab\u00f3lico. Tinha poderes excepcionais: podia apagar uma vela a dez metros de dist\u00e2ncia, usando a for\u00e7a mental. Exercia fascina\u00e7\u00e3o sobre as mulheres, que se tornavam verdadeiras escravas, fazendo tudo o que ele queria. Dizem que influenciou algumas id\u00e9ias de Hitler, mas nunca se aproximou do ditador nazista. Rico, Crowley tornou-se m\u00e1gico, depois de umas vis\u00f5es estranhas. Sua vida foi agitada, confusa. Morreu na mis\u00e9ria, arruinado por drogas.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s do pequeno porto siciliano de Cefalu, avistava o morro Santa B\u00e1rbara, com suas encostas cobertas de oliveiras. Parecia ver a minha frente, naquela manh\u00e3 ensolarada de agosto, o homem estranho que, quarenta anos atr\u00e1s, tinha vindo morar no local que lhe fora designado por um or\u00e1culo chin\u00eas.<\/p>\n<p>Hoje pouca gente se lembra de Aleister Crowley em Cefalu. Nos primeiros dias de abril de 1920, Crowley e sua amante americana Leah Faesi mudaram para a ilha. Desejavam fundar ali um templo de magia, uma usina de energia oculta que suplantaria o cristianismo num futuro pr\u00f3ximo. Uma outra mulher os acompanhava: era Ninette Fraux, a segunda amante do m\u00e1gico, e duas crian\u00e7as. Uma delas era Poup\u00e9e, filha ileg\u00edtima de Crowley e de Leah Faesi. Posteriormente, outros disc\u00edpulos do mago desembarcaram em Cefalu: Elizabeth Fox, a amante n\u00famero tr\u00eas, Mary Butts e Cecil Maitland. Todos eles foram iniciados em diversos mist\u00e9rios, como por exemplo o acasalamento de um bode, s\u00edmbolo da fecundidade, com Leah Faesi. Estava ali tamb\u00e9m Norman Mudd que se demitiu de sua cadeira. numa universidade da \u00c1frica do Sul para colaborar na edifica\u00e7\u00e3o da grande obra m\u00e1gica.<br \/>\nNunca houve muitos turistas visitando as colinas de Santa B\u00e1rbara, mas at\u00e9 o momento em que Mussolini expulsou dali Aleister Crowley, em 1922, o vaiv\u00e9m dos iniciados, adeptos e admiradores foi intenso. Aos novos visitantes, o mago oferecia primeiramente uma navalha para que cortassem o bra\u00e7o toda vez que empregassem a palavra &#8220;eu&#8221;. Somente o mestre tinha o direito de empregar esse pronome pessoal.<\/p>\n<p>Aleister Crowley realizou em Cefalu a obra dos seus sonhos: fundar a abadia de Telemo imaginada por Babelais. O or\u00e1culo chin\u00eas informara-lhe que a hora tinha chegado. Na casa situada na encosta do morro Santa B\u00e1rbara, reinava a regra que Babelais inscrevera em letras douradas na porta de sua abadia imagin\u00e1ria: &#8220;Do what thou wilt shall be the whole of the law&#8221;, (Faze o que desejas: este ser\u00e1 o princ\u00edpio fundamental da lei). Mas essa liberdade era a recompensa dada aos que tinham atingido a suprema sabedoria. Para chegar l\u00e1, era preciso primeiro submeter-se \u00e0 vontade do mestre. Crowley, por sinal, comportava-se como um verdadeiro tirano junto aos fi\u00e9is que faziam retiro na abadia de Telemo, fossem h\u00f3spedes permanentes ou de passagem.<br \/>\nNUAS AO SOL<\/p>\n<p>Quando desejava punir suas in\u00fameras amantes de alguma desobedi\u00eancia, Crowley as expunha nuas, os bra\u00e7os em cruz, em cima dos rochedos que davam para o mar. Deveriam permanecer ali im\u00f3veis e mudas, marcadas a ferro no meio do peito com o sinete de seu senhor, aben\u00e7oando interiormente a depend\u00eancia que gozavam, at\u00e9 que uma ordem dele suspendesse o castigo. Os camponeses sicilianos costumavam contemplar com um desejo distante aquelas est\u00e1tuas de carne expostas \u00e0 dureza das rochas. O p\u00e1roco da aldeia procurava explicar da melhor forma poss\u00edvel a seus fi\u00e9is, que se escandalizavam, o comportamento exc\u00eantrico do senhor ingl\u00eas &#8211; j\u00e1 que as autoridades italianas toleraram sua presen\u00e7a na ilha durante v\u00e1rios anos.<\/p>\n<p>Todos os homens na abadia deviam raspar a cabe\u00e7a, com exce\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica mecha em cima da testa. As mulheres tingiam os cabelos de vermelho ou de amarelo. Usavam um vestido azul celeste que ca\u00eda como uma t\u00fanica sem pregas. Todos os membros da comunidade escreviam di\u00e1rios onde anotavam seus pensamentos e aspira\u00e7\u00f5es mais \u00edntimas. O mestre, naturalmente, tinha livre acesso a essas confiss\u00f5es, tantas vezes quantas desejasse.<\/p>\n<p>A casa de veraneio onde Crowley imaginava reunir energia m\u00e1gica suficiente para conquistar o mundo, era uma modesta constru\u00e7\u00e3o t\u00e9rrea. Cinco quartos davam para a sala principal: o Sanctus Sanctorum ou o templo dos mist\u00e9rios tel\u00eamicos. Em cima dos azulejos vermelhos, Crowley desenhou um c\u00edrculo m\u00e1gico e um pentagrama, cujas pontas tocavam as bordas da circunfer\u00eancia. O trono do s\u00e1bio ficava a leste; o de sua amante n\u00famero um, ou mulher escarlate, ficava a oeste. Nas paredes do templo, Crowley pintara pessoalmente todas as posi\u00e7\u00f5es poss\u00edveis do ato sexual.<\/p>\n<p>Era ali que os residentes diziam suas ora\u00e7\u00f5es cinco vezes por dia, seguiam os of\u00edcios gn\u00f3sticos, sacrificavam animais, invocavam os dem\u00f4nios e entregavam-se aos ritos sexuais. A casa existe ainda hoje. Um coronel da avia\u00e7\u00e3o aposentado mora ali com sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil falar seriamente de um indiv\u00edduo que se gabava de ser &#8220;o homem mais perverso da cria\u00e7\u00e3o&#8221;. Ocorre-nos imediatamente a id\u00e9ia de um adolescente retardado, ou que ele n\u00e3o merecia o diploma honroso que se atribuiu a si mesmo. Crowley, de fato, parece ter sido um adolescente retardado e um psicanalista encontraria na sua inf\u00e2ncia austera algumas explica\u00e7\u00f5es para seu comportamento exc\u00eantrico.<\/p>\n<p>Edward Alexander Crowley nasceu em 12 de outubro de 1875, em Leamington, na Inglaterra. Mais tarde, ele adotou o nome Aleister, por lhe parecer mais enigm\u00e1tico. Ali\u00e1s, realizou prod\u00edgios de imagina\u00e7\u00e3o para descobrir uma genealogia nobre: pensava descender da grande fam\u00edlia bret\u00e3 de Querouailles. Pretendia igualmente que o grande poeta ingl\u00eas do s\u00e9culo 17, Abraham Crowley, era seu antepassado. Essa paix\u00e3o dos nomes e dos t\u00edtulos, juntamente com a dos disfarces, acompanharam-no a vida inteira. Quando se mudou para Londres, ap\u00f3s terminar os estudos, adotou o nome de Wladimir Svaref. Na Esc\u00f3cia, o de Lord Boleskine e no Oriente, o de pr\u00edncipe Chioa Khan. A lista dos seus nomes fict\u00edcios \u00e9 intermin\u00e1vel.<\/p>\n<p>Na realidade, seu pai era um burgu\u00eas austero da prov\u00edncia, cuja fam\u00edlia havia enriquecido fabricando cerveja. Na casa paterna, o dia come\u00e7ava com a leitura e o coment\u00e1rio de alguns vers\u00edculos da B\u00edblia. Esse costume se repetia durante as outras refei\u00e7\u00f5es, at\u00e9 a hora de dormir, que era precedida de um \u00faltimo serm\u00e3o. N\u00e3o havia jogos nem distra\u00e7\u00f5es. Com dez anos, Aleister imaginava-se um futuro soldado de Cristo. Desde o fim de sua adolesc\u00eancia, por\u00e9m, ele descobriu sua verdadeira voca\u00e7\u00e3o: seria um soldado do diabo.<\/p>\n<p>Com essa disposi\u00e7\u00e3o entrou para o Trinity College, uma das mais famosas faculdades de Cambridge. Ali, dedicou seu tempo \u00e0 poesia, inspirado pelas obras de Baudelaire e de Swinbume. Revelou-se igualmente um rebelde de id\u00e9ias originais e exc\u00eantricas, cuja influ\u00eancia sobre os colegas foi bem cedo considerada nociva.<\/p>\n<p>UMA S\u00c9RIE DE REVELA\u00c7\u00d5ES<\/p>\n<p>O pai de Crowley morreu muito jovem deixando uma fortuna de 40 mil libras, o que iria permitir ao filho levar a exist\u00eancia que desejasse e, antes de tudo, abandonar-se a sua paix\u00e3o de viagens. No dia 31 de dezembro de 1896, enquanto dormia num hotel de Estocolmo, Crowley foi acordado pela revela\u00e7\u00e3o de que possu\u00eda poderes m\u00e1gicos.<\/p>\n<p>Descobria finalmente o que sempre desejou ser, inconscientemente: um adepto das ci\u00eancias ocultas, um mago. Sua tarefa era partir \u00e0 procura dos segredos que desenvolveriam seus dons, buscar as origens da magia, primeiro nas sociedades secretas do Ocidente, depois nos mosteiros do Tibet, com os iogas da \u00cdndia e at\u00e9 mesmo da China distante. Talvez seu grande desejo fosse se tornar uma celebridade. E a magia lhe parecia um caminho seguro para alcan\u00e7ar a gl\u00f3ria. Crowley entendia por magia a arte que dava ao indiv\u00edduo um controle secreto e eficaz sobre as for\u00e7as da natureza.<\/p>\n<p>A vida de Crowley foi uma sucess\u00e3o de revela\u00e7\u00f5es e de emo\u00e7\u00f5es. Ele sempre tinha a impress\u00e3o de ser conduzido para situa\u00e7\u00f5es excepcionais. Pouco a pouco, passou a acreditar que era o novo Messias. Isso explicava as precau\u00e7\u00f5es que os dem\u00f4nios e o destino tomavam com sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Sua revela\u00e7\u00e3o n\u00famero um foi a descoberta, em Paris, da Magia Sagrada, do mago Abra-Merlin. Aleister Crowley fez dessa obra seu livro de cabeceira. A segunda revela\u00e7\u00e3o ocorreu alguns anos depois, no Egito. Uma voz misteriosa conduziu-o at\u00e9 a est\u00e1tua do deus Horus, que estava marcada com o n\u00famero 666 &#8211; o n\u00famero da Besta no Apocalipse, que Crowley j\u00e1 havia adotado como seu. O deus eg\u00edpcio ditou-lhe os 75 vers\u00edculos de sua b\u00edblia, O Livro da Lei.<\/p>\n<p>Quando os instantes privilegiados se faziam mais raros, Crowley recorria aos pauzinhos chineses, que atirava em cima da cama ou de uma mesa e cujas ordens ele interpretava. &#8220;Se desejas entregar-se \u00e0 magia &#8211; escreveu Abra-Merlin &#8211; deves come\u00e7ar por construir um orat\u00f3rio segundo certas formas exatas. A porta deve abrir para o norte, no alto de um terra\u00e7o coberto de areia fina de rio. Na extremidade do terra\u00e7o deve haver uma pequena loggia, onde os esp\u00edritos demon\u00edacos poder\u00e3o se reunir.&#8221; Em que lugar Crowley deveria construir um templo m\u00e1gico? Ele viajou muito tempo \u00e0 procura de um local prop\u00edcio, at\u00e9 se decidir por uma pequena casa na Esc\u00f3cia, perto de Loch Ness. Foi ali que iniciou verdadeiramente sua vida de m\u00e1gico praticante.<\/p>\n<p>Aparentemente, seus primeiros passos no ocultismo revelaram inexperi\u00eancia, pelo que aconteceu em sua casa. Seu cocheiro come\u00e7ou a sofrer de delirium tremens, uma vidente que fizera vir de Londres abandonou-o pela prostitui\u00e7\u00e3o, o propriet\u00e1rio de sua casa desapareceu misteriosamente, um oper\u00e1rio da vizinhan\u00e7a enlouqueceu e tentou mat\u00e1-lo. Finalmente, o a\u00e7ougueiro da cidade, com quem havia brigado, cortou acidentalmente a art\u00e9ria da perna e morreu.<\/p>\n<p>Como explicar esses fatos? Simples coincid\u00eancias ou manifesta\u00e7\u00f5es de uma aura mal\u00e9fica? No momento em que abandonamos o tom de narra\u00e7\u00e3o neutra a prop\u00f3sito de Crowley, corremos o risco de passar por cr\u00e9dulos ou adeptos. Nosso objetivo, contudo, se limitar\u00e1 a contar a hist\u00f3ria de um homem estranho que, vinte anos ap\u00f3s sua morte, continua envolto no mist\u00e9rio. Se Crowley n\u00e3o fosse um problema, primeiro para os psicanalistas, depois para os historiadores do ocultismo, que interesse ter\u00edamos por ele? O n\u00famero dos psicopatas \u00e9 infinito, o dos man\u00edacos sexuais n\u00e3o \u00e9 menor. Um dos enigmas colocados por Aleister Crowley \u00e9 a const\u00e2ncia de certas obsess\u00f5es em sua vida.<\/p>\n<p>Dificilmente podemos negar que havia algo nele do adolescente perverso. O sexo dominou sua exist\u00eancia e ele era dotado nesse setor de apetites insaci\u00e1veis. N\u00e3o dava a m\u00ednima import\u00e2ncia \u00e0 idade, sexo ou atrativos f\u00edsicos das pessoas com quem praticava suas orgias. Talvez preferisse as mulheres feias. Mas a sexualidade nunca foi para ele a satisfa\u00e7\u00e3o banal das necessidades f\u00edsicas. Ela esteve sempre intimamente ligada a suas pr\u00e1ticas m\u00e1gicas.<\/p>\n<p>Se for exato que a energia sexual sublimada \u00e9 um dos elementos da ioga ou da magia branca, \u00e9 poss\u00edvel tamb\u00e9m que a orgia ajude o m\u00e1gico a entrar em contato com for\u00e7as negativas e destruidoras. Isso explica por que centenas de mulheres estiveram associadas \u00e0 vida de Crowley. Se muitas delas desconheciam a virtude, muitas outras n\u00e3o pareciam destinadas \u00e0 promiscuidade. Duas das tr\u00eas esposas do m\u00e1gico terminaram a vida num hosp\u00edcio. In\u00fameras amantes dele perderam a fortuna, a honra e a ess\u00eancia imaterial da feminilidade. Aleister Crowley, por sua vez, tinha uma opini\u00e3o med\u00edocre das mulheres. Dizia que elas deveriam ser entregues em casa como o leite, pela entrada de servi\u00e7o. Mesmo assim, ele exercia sobre elas um fasc\u00ednio indefin\u00edvel. Possivelmente, um poderoso magnetismo sexual emanava dele. Por outro lado, ele recorria a qualquer artif\u00edcio para acentuar esse dom, indo da hipnose aos perfumes afrodis\u00edacos.<\/p>\n<p>Contam que certo dia, em Londres, Crowley parou diante de uma vitrina, ao lado de um casal de jovens. A mo\u00e7a o seduziu especialmente. Algumas horas mais tarde, ela o acompanhou a um hotel onde passaram dez dias juntos. Satisfeito o desejo da novidade, ele afastou-se dela como de tantas outras cuja exist\u00eancia havia arruinado. Nesse meio tempo, o marido havia iniciado um processo de div\u00f3rcio.<\/p>\n<p>Por que motivo aquela mo\u00e7a rec\u00e9m-casada seguiu a Besta &#8211; como ele pr\u00f3prio se denominava? Essa pergunta nunca recebeu uma resposta satisfat\u00f3ria.<\/p>\n<p>OS SUPERIORES DESCONHECIDOS<\/p>\n<p>Certas id\u00e9ias adotadas por Crowley em suas conversas ou em seus livros, poderiam ter sido pronunciadas por Hitler. Segundo alguns historiadores, Hitler sabia da exist\u00eancia do mago negro e mencionou pelo menos duas vezes seu nome em p\u00fablico. Crowley, bem entendido, nunca representou o papel do l\u00edder nazista, nem tampouco exerceu sua influ\u00eancia. Mas durante toda sua vida esteve cercado de fi\u00e9is dispostos a segui-lo, de mulheres prontas a am\u00e1-lo, de amigos que o entretinham, de disc\u00edpulos que divulgavam suas id\u00e9ias. Sua fortuna foi dilapidada em dez ou quinze anos. Se mais tarde, durante cerca de trinta anos, conheceu dificuldades econ\u00f4micas, encontrou sempre algu\u00e9m que lhe pagasse as viagens, que lhe fornecesse coca\u00edna e haxixe.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o tenha conhecido pessoalmente Hitler, Crowley manteve contatos oficiais com os servi\u00e7os secretos alem\u00e3es. Em 1921, recebeu a visita inesperada, em seu apartamento de Londres, de Theodore Reuss, que era ao mesmo tempo chefe da sociedade secreta alem\u00e3 Ordo Templis Orientis (Ordem dos Templ\u00e1rios Orientais) e um aut\u00eantico espi\u00e3o. O objetivo da visita de Reuss foi criticar violentamente o m\u00e1gico ingl\u00eas por haver revelado em seus livros as regras de inicia\u00e7\u00e3o de sua ordem. Crowley defendeu-se com eloq\u00fc\u00eancia e jurou que seria mais discreto no futuro. Os dois homens separaram-se cordialmente, ap\u00f3s Crowley ter aceito dirigir o ramo brit\u00e2nico da O.T.O. &#8211; fun\u00e7\u00e3o que exerceu sob o nome de Baphomet. Esse epis\u00f3dio foi o coroamento de uma complicada peregrina\u00e7\u00e3o realizada por Crowley, junto \u00e0s principais sociedades ocultistas do Ocidente.<\/p>\n<p>Ele conheceu na Su\u00ed\u00e7a, depois de terminar os estudos, um qu\u00edmico ingl\u00eas que o introduziu \u00e0 sociedade secreta Golden Dawn, da qual faziam parte Arthur Machen e o poeta Yeats. Ap\u00f3s ter sido aceito na ordem, Crowley percorreu rapidamente os diversos graus de hierarquia: ne\u00f3fito, zelador, te\u00f3rico, pr\u00e1tico e fil\u00f3sofo. Ao atingir o \u00faltimo posto, ele desejou conhecer um dos Superiores Desconhecidos, esp\u00e9cie de super-m\u00e1gicos que controlam as a\u00e7\u00f5es humanas de algum mosteiro secreto no Tibet ou em outro lugar do mundo.<\/p>\n<p>Seu desejo concretizou-se certa noite em Paris, quando encontrou no Bois de Boulogne o chefe da sociedade secreta inglesa, Mathers, e mais tr\u00eas grandes magos. Depois desse encontro, Crowley n\u00e3o suportou mais ocupar uma posi\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria. Rompeu com Mathers e fundou sua pr\u00f3pria sociedade inici\u00e1tica, a Silver Star, cujo selo secreto era A.: A.:. Somente em Londres essa sociedade contava 38 membros em 1914.<\/p>\n<p>A d\u00favida \u00e9 saber se Aleister Crowley foi um verdadeiro m\u00e1gico e iniciado ou se apenas representou esse papel durante a vida inteira. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que ele tenha desenvolvido ao m\u00e1ximo certos poderes latentes que existem em todos os indiv\u00edduos. Contam que em Cambridge ele praticava exerc\u00edcios de concentra\u00e7\u00e3o mental. Segundo o testemunho de um professor, ele podia apagar uma vela, colocada a dez metros de dist\u00e2ncia, pela simples for\u00e7a da vontade. Em Cefalu, predisse a morte de Poup\u00e9e, a morte de um primeiro disc\u00edpulo, Raoul Loveday, e o suic\u00eddio do professor Norman Mudd. Todos os tr\u00eas dramas aconteceram de acordo com as previs\u00f5es de Crowley.<\/p>\n<p>Betty Loveday, que n\u00e3o gostava de Crowley, devido ao dom\u00ednio total que exercia sobre seu marido, contou que certa vez a gata da casa, Mischette, foi condenada \u00e0 morte por ter arranhado seriamente o mago. &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o sair\u00e1 daqui durante tr\u00eas dias, at\u00e9 a hora do sacrif\u00edcio&#8221;, ordenou Crowley. Betty Loveday fez tudo para salvar a gata: levou-a para longe, expulsou-a de casa, etc. A gata voltava sempre ao lugar indicado e aguardou sem comer nem beber o momentos a morte.<\/p>\n<p>Segundo a opini\u00e3o de alguns, Crowley possu\u00eda duas personalidades: uma, a exterior, que desejava surpreender a imagina\u00e7\u00e3o dos outros e n\u00e3o poupava nada para satisfazer suas paix\u00f5es; a outra, mais interior, que possu\u00eda o segredo de um poder que se manifestava de tempos em tempos. George Langelaan, escritor e colaborador do Plan\u00e8te, conheceu o poeta-m\u00e1gico em Paris, pouco antes da \u00faltima guerra. Eis o testemunho que deu: importante porque acrescenta uma nota humana ao caso Crowley. &#8220;Quando conheci Aleister Crowley, no ano de 1930, sabia apenas que era irland\u00eas. Jamais poderia adivinhar que aquele homem meio obeso, grisalho e sorridente, era ao mesmo tempo poeta, pesquisador, sombra do reino das sombras, \u00f3timo cozinheiro, grande bebedor de caf\u00e9, alta personalidade das sociedades secretas, pr\u00edncipe da alquimia e grande mestre da magia negra! S\u00f3 muito mais tarde, e lentamente, descobri a verdade: Crowley foi uma das grandes influ\u00eancias da nossa \u00e9poca, um dos tr\u00eas ou quatro grandes homens cuja exist\u00eancia suspeitamos antes mesmo de conhecer.<\/p>\n<p>&#8220;Conhecemo-nos mais intimamente no clube de xadrez da col\u00f4nia brit\u00e2nica existente em Paris. Naquela \u00e9poca, os jogadores se reuniam uma ou duas vezes por semana no Caf\u00e9 du Grand Palais, que tinha a vantagem de ficar aberto at\u00e9 tarde e estar quase sempre deserto.<\/p>\n<p>&#8220;Crowley era um jogador curioso. Ganhar ou perder n\u00e3o significava nada para ele. Ali\u00e1s, o pr\u00f3prio jogo deixava-o indiferente. O que buscava no xadrez era a situa\u00e7\u00e3o, a posi\u00e7\u00e3o singular que, de repente, excitava sua imagina\u00e7\u00e3o. A\u00ed ent\u00e3o mostrava-se muito h\u00e1bil e era capaz de jogar como um campe\u00e3o. Em compensa\u00e7\u00e3o, abandonava a partida se uma situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe interessava, mesmo quando tinha a certeza de ganhar. Ele ia regularmente \u00e0s reuni\u00f5es do clube, mas recusava participar nos campeonatos ou outras modalidades de competi\u00e7\u00e3o. Quando acontecia de jogar com ele, tinha sempre a impress\u00e3o que, se ele desejasse, a partida teria terminado de maneira bem diferente. Outras vezes, ele ficava em posi\u00e7\u00e3o de inferioridade unicamente para criar uma posi\u00e7\u00e3o interessante &#8211; ou ent\u00e3o para ver como eu me comportava.<\/p>\n<p>&#8220;Seu nome tornou-se muito conhecido quando um jornal de Paris publicou uma s\u00e9rie de artigos sobre magia. Chamavam-no o papa da magia negra, cuja capital era a cidade de Li\u00e3o. De fato, Crowley ia freq\u00fcentemente a Li\u00e3o. No clube, os artigos foram muito comentados. Crowley achou gra\u00e7a e zombou do caso, mas n\u00e3o desmentiu.<\/p>\n<p>&#8220;Uma noite, contudo, presenciei Aleister Crowley recorrer a certos poderes m\u00e1gicos. Digo m\u00e1gicos porque esse qualificativo corresponde perfeitamente ao homem e \u00e0 lenda, mas nada prova que o poder que utilizou naquela ocasi\u00e3o fosse &#8220;m\u00e1gico&#8221;, termo que implica a interven\u00e7\u00e3o de outros esp\u00edritos. Talvez possu\u00edsse apenas um poder pessoal, capaz de atuar sobre as pessoas e as coisas. Eis como o fato se deu:<\/p>\n<p>&#8220;Crowley aceitou, excepcionalmente, participar de um campeonato de xadrez. O capit\u00e3o da nossa equipe rogou-lhe esse favor quando soube que ir\u00edamos enfrentar advers\u00e1rios muito fortes. Como bom estrategista, nosso capit\u00e3o colocou Crowley no tabuleiro n\u00famero um, sacrificando-o ao jogador mais forte do time advers\u00e1rio. Dessa forma, os outros jogadores do nosso time teriam uma possibilidade maior de ganhar.<\/p>\n<p>&#8220;Crowley sentou-se sorrindo em frente ao tabuleiro e, sem nenhuma mod\u00e9stia, jogou mal e muito depressa. \u00c0s vezes encontrava uma combina\u00e7\u00e3o interessante que obrigava o advers\u00e1rio a refletir algum tempo antes de responder. Perdeu a maior parte das partidas, mas conservou sempre seu sorriso. \u00c0 medida que as partidas se sucediam, Crowley encontrou-se diante de um dos melhores jogadores do mundo naquela \u00e9poca, o mestre Tartakower. Certo de marcar um ponto para sua equipe, o grande mestre jogava muito calmo. Crowley tamb\u00e9m estava perfeitamente tranq\u00fcilo, \u00e0 procura, como sempre, de uma posi\u00e7\u00e3o interessante. Mais ou menos uma hora ap\u00f3s o in\u00edcio da partida, Crowley aproveitou que seu advers\u00e1rio refletia, para dar uma volta pela sala e observar os outros tabuleiros..<\/p>\n<p>&#8211; Nada brilhante &#8211; disse ao capit\u00e3o da nossa equipe.<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9. E voc\u00ea? Como est\u00e1 sua partida com Tarta?<\/p>\n<p>&#8211; Continuo somente por uma quest\u00e3o de \u00e9tica. Mas ele vai ganhar. J\u00e1 me comeu um pe\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem esperan\u00e7a de empatar?<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o ganhar, j\u00e1 que estamos no jogo? &#8211; disse Crowley sorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; Seria um ponto precioso para n\u00f3s, um ponto que nos salvaria da desclassifica\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Olha, meu velho, n\u00e3o entendo nada de contagem de pontos, mas, se for realmente t\u00e3o importante, vou dar um jeito.<\/p>\n<p>&#8211; Claro que \u00e9 importante, mas como?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vou organizar meu jogo, pelo menos esta vez &#8211; disse Crowley voltando ao seu tabuleiro.<\/p>\n<p>&#8220;Alguns minutos depois, jogou, parou seu rel\u00f3gio e p\u00f4s em movimento o do advers\u00e1rio. E dirigiu-se ent\u00e3o ao banheiro que ficava no subsolo. Eu o tinha visto sair mas n\u00e3o pensava mais nisso quando desci por minha vez. Encontrei-o em mangas de camisa, com o colarinho aberto, diante de um espelho. Olhava-se fixamente e fazia uma gin\u00e1stica estranha com as m\u00e3os e os bra\u00e7os, como um hipnotizador, s\u00f3 que empregava uma gesticula\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 dos surdos-mudos. Sorriu ao perceber o esfor\u00e7o que fazia para ficar s\u00e9rio e disse: &#8211; N\u00e3o \u00e9 nada. Estava em confer\u00eancia com o bar\u00e3o. &#8211; Nunca fiquei sabendo quem era esse bar\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8220;Imaginem minha surpresa, poucos instantes depois, quando vi Tartakower derrubar seu rei em sinal de abandono! Ele perdera a partida em conseq\u00fc\u00eancia de uma jogada est\u00fapida, imperdo\u00e1vel para um mestre.&#8221;<\/p>\n<p>Algum tempo depois dessa noite, Aleister Crowley foi expulso da Fran\u00e7a, como havia sido da It\u00e1lia. Magia negra? Espionagem? As raz\u00f5es que motivaram essa decis\u00e3o nunca foram divulgadas. Ao morrer, em 1944, numa pequena pens\u00e3o ao sul da Inglaterra, o poeta-m\u00e1gico estava reduzido \u00e0 mis\u00e9ria. Sua solid\u00e3o moral e afetiva era quase total. Sua sa\u00fade arruinada h\u00e1 alguns anos, pelo uso de drogas. A grande intelig\u00eancia que o servira na vida tinha sido o pr\u00f3prio agente de sua destrui\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m pode fazer impunemente um pacto com o diabo: a li\u00e7\u00e3o do doutor\u00a0Fausto n\u00e3o pertence apenas ao dom\u00ednio da lenda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jacques Mousseau &#8211; Revista Planeta, n\u00ba007, 1973 Os pactos com o diabo existem. Aleister Crowley fez um. Ele se chamava a si mesmo de &#8220;A Besta&#8221;. Era prodigiosamente inteligente e diab\u00f3lico. Tinha poderes excepcionais: podia apagar uma vela a dez metros de dist\u00e2ncia, usando a for\u00e7a mental. 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