{"id":277,"date":"2015-04-13T10:33:47","date_gmt":"2015-04-13T13:33:47","guid":{"rendered":"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/?p=277"},"modified":"2015-04-13T10:35:13","modified_gmt":"2015-04-13T13:35:13","slug":"os-quatro-inimigos-do-homem-de-conhecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/?p=277","title":{"rendered":"Os Quatro Inimigos do Homem de Conhecimento"},"content":{"rendered":"<p>Em nossas conversas, Dom Juan sempre usava ou se referia \u00e0 express\u00e3o &#8220;Homem de Conhecimento&#8221;, mas nunca explicava o que queria dizer com isso. Perguntei-lhe a respeito. <\/p>\n<p>&#8211; Um homem de conhecimento \u00e9 aquele que seguiu honestamente as dificuldades da aprendizagem &#8211; disse ele. &#8211; Um homem que, sem se precipitar nem hesitar, foi t\u00e3o longe quanto p\u00f4de para desvendar os segredos do poder e da sabedoria. <\/p>\n<p>&#8211; Qualquer pessoa pode ser um homem de conhecimento? <\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o; n\u00e3o qualquer pessoa. <\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o que \u00e9 preciso para se tornar um homem de conhecimento? <\/p>\n<p>&#8211; O homem tem que desafiar e vencer seus quatro inimigos naturais. <\/p>\n<p>&#8211; Ele ser\u00e1 um homem de conhecimento depois de vencer esses quatro inimigos? <\/p>\n<p>&#8211; Sim. Um homem pode chamar-se de homem de conhecimento somente se for capaz de vencer os quatro. <\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, qualquer pessoa que conseguir vencer esses inimigos pode ser um homem de conhecimento? <\/p>\n<p>&#8211; Qualquer pessoa que os vencer tornar-se um homem de conhecimento. <\/p>\n<p>&#8211; Mas h\u00e1 algum requisito especial que o homem tenha de atender antes de lutar contra esses inimigos? <\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Qualquer pessoa pode tentar tornar-se um homem de conhecimento; muito poucos homens o conseguem, realmente, mas isso \u00e9 natural. Os inimigos que um homem encontra no caminho do saber para tornar-se um homem de conhecimento s\u00e3o realmente formid\u00e1veis; a maioria dos homens sucumbe a eles. <\/p>\n<p>&#8211; Que tipos de inimigos s\u00e3o, Dom Juan? <\/p>\n<p>Recusou-se a falar sobre os inimigos. Disse que se passaria muito tempo at\u00e9 que o assunto fizesse sentido para mim. Procurei manter a conversa a perguntei-lhe que eu poderia me tornar um homem de conhecimento. Respondeu que ningu\u00e9m poderia dizer isso ao certo. Mas eu insisti para saber se havia algum ind\u00edcio que ele pudesse usar<br \/>\npara saber se eu tinha ou n\u00e3o possibilidade de me tornar um homem de conhecimento. Falou que dependia de minha luta contra os quatro inimigos &#8211; se eu conseguiria derrot\u00e1-los ou ser derrotado por eles &#8211; mas que era imposs\u00edvel prever o resultado dessa luta. <\/p>\n<p>Perguntei-lhe se ele podia usar feiti\u00e7os ou adivinha\u00e7\u00e3o para ver o resultado da luta. Declarou claramente que os resultados da luta n\u00e3o poderiam ser previstos por meio algum, porque tornar-se um homem de conhecimento era uma coisa tempor\u00e1ria. Quando eu pedi que ele explicasse isso, respondeu: <\/p>\n<p>&#8211; Ser um homem de conhecimento n\u00e3o tem perman\u00eancia. Nunca se \u00e9 um homem de conhecimento. N\u00e3o de verdade. Ou antes, a pessoa se torna um homem de conhecimento por um instante muito breve, depois de derrotar os quatro inimigos naturais. <\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea tem que me dizer, Dom Juan, que tipos de inimigos eles s\u00e3o. <\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o respondeu. Tornou a insistir, mas ele mudou de assunto e come\u00e7ou a falar sobre outra coisa. <\/p>\n<p>Domingo, 15 de abril de 1962 <\/p>\n<p>Quando eu estava me preparando para partir, tornei a lhe perguntar acerca dos inimigos do homem de conhecimento. Argumentei que ia passar algum tempo sem voltar, e que seria uma boa id\u00e9ia escrever as coisas que ele tivesse a dizer e pensar e pensar a respeito enquanto estivesse fora. Hesitou um pouco, mas depois come\u00e7ou a falar: <\/p>\n<p>&#8211; Quando um homem come\u00e7a a aprender, ele nunca sabe muito claramente quais seus objetivos. Seu prop\u00f3sito \u00e9 falho; sua inten\u00e7\u00e3o, vaga. Espera recompensas que nunca se materializar\u00e3o, pois n\u00e3o conhece nada das dificuldades da aprendizagem. <\/p>\n<p>&#8220;Devagar, ele come\u00e7a a aprender&#8230; a princ\u00edpio, pouco a pouco, e depois em por\u00e7\u00f5es grandes. E logo seus pensamentos entram em choque. O que aprende nunca \u00e9 o que ele imaginava, de modo que come\u00e7a a ter medo. Aprender nunca \u00e9 o que se espera. Cada passo da aprendizagem \u00e9 uma nova tarefa, e o medo que o homem sente come\u00e7a a crescer<br \/>\nimpiedosamente, sem ceder. Seu prop\u00f3sito tornar-se um campo de batalha. <\/p>\n<p>&#8220;E assim ele se deparou com o primeiro de seus inimigos naturais: o Medo! Um inimigo terr\u00edvel, trai\u00e7oeiro, e dif\u00edcil de vencer. Permanece oculto em todas as voltar do caminho, rondando, \u00e0 espreita. E se o homem, apavorado com a sua presen\u00e7a, foge, seu inimigo ter\u00e1 posto um fim \u00e0 sua busca. <\/p>\n<p>&#8211; O que acontece com o homem se ele fugir com medo? <\/p>\n<p>&#8211; Nada lhe acontece, a n\u00e3o ser que nunca aprender\u00e1. Nunca se tornar\u00e1 um homem de conhecimento. Talvez se torne um tirano, ou um pobre homem apavorado e inofensivo; de qualquer forma, ser\u00e1 um homem vencido. Seu primeiro inimigo ter\u00e1 posto fim a seus desejos. <\/p>\n<p>&#8211; E o que ele pode fazer para vencer o medo? <\/p>\n<p>&#8211; A resposta \u00e9 muito simples. N\u00e3o deve fugir. Deve desafiar o medo, e, a despeito dele, deve dar o passo seguinte na aprendizagem, e o seguinte, e o seguinte. Deve ter medo, plenamente, e no entanto n\u00e3o deve parar. \u00c9 esta a regra! E o momento chegar\u00e1 em que o seu primeiro inimigo recua. O homem come\u00e7a a se sentir seguro de si. Seu prop\u00f3sito torna-se mais forte. Aprender n\u00e3o \u00e9 mais uma tarefa aterradora. Quando chega esse momento feliz, o homem pode dizer sem hesitar que derrotou seu primeiro inimigo natural. <\/p>\n<p>&#8211; Isso acontece de uma vez, Dom Juan, ou aos poucos? <\/p>\n<p>&#8211; Acontece aos poucos e no entanto o medo \u00e9 vencido de repente e depressa. <\/p>\n<p>&#8211; Mas o homem n\u00e3o ter\u00e1 medo outra vez, se lhe acontecer alguma coisa nova? <\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Uma vez que o homem venceu o medo, fica livre dele o resto da vida, porque, em vez do medo, ele adquiriu a clareza&#8230; uma clareza de esp\u00edrito que apaga o medo. Ent\u00e3o, o homem j\u00e1 conhece seus desejos; sabe como satisfaz\u00ea-los. Pode antecipar os pr\u00f3ximos passos na aprendizagem e uma clareza viva cerca tudo. O homem sente que nada se lhe oculta. <\/p>\n<p>&#8220;E assim ele encontra seu segundo inimigo: a Clareza! Essa clareza de esp\u00edrito, que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil de obter, elimina o medo, mas tamb\u00e9m cega. <\/p>\n<p>&#8220;Obriga o homem a nunca duvidar de si. D\u00e1-lhe a seguran\u00e7a de que ele pode fazer o que bem entender, pois ele v\u00ea tudo claramente. E ele \u00e9 corajoso porque \u00e9 claro e n\u00e3o p\u00e1ra diante de nada porque \u00e9 claro. Mas tudo isso \u00e9 um engano; \u00e9 uma coisa incompleta. Se o homem sucumbir a esse poder de faz-de-conta, sucumbiu a seu segundo inimigo e tatear\u00e1 com a aprendizagem. Vai precipitar-se quando devia ser paciente, ou ser paciente quando devia precipitar-se. E tatear\u00e1 com a aprendizagem at\u00e9 acabar incapaz de aprender mais qualquer coisa. <\/p>\n<p>&#8211; O que acontece com um homem que \u00e9 derrotado assim, Dom Juan? Ele morre por isso? <\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o morre. Seu inimigo acaba de impedi-lo de se tornar um homem de conhecimento; em vez disso, o homem pode tornar-se um guerreiro valente, ou um palha\u00e7o. No entanto, a clareza, pela qual ele pagou t\u00e3o caro, nunca mais se transformar\u00e1 de novo em trevas ou medo. Ser\u00e1 claro enquanto viver, mas n\u00e3o aprender\u00e1 nem desejar\u00e1 nada. <\/p>\n<p>&#8211; Mas o que tem de fazer para n\u00e3o ser vencido? <\/p>\n<p>&#8211; Tem de fazer o que fez com o medo: tem de desafiar sua clareza e us\u00e1-la s\u00f3 pra ver, e esperar com paci\u00eancia e medir com cuidado antes de dar novos passos; deve pensar, acima de tudo, que sua clareza \u00e9 quase um erro. E vir\u00e1 um momento em que ele compreender\u00e1 que sua clareza era apenas um ponto diante de sua vista. E assim ele ter\u00e1 vencido seu segundo inimigo, e estar\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o em que nada mais poder\u00e1 prejudic\u00e1-lo. Isso n\u00e3o ser\u00e1 um engano. N\u00e3o ser\u00e1 um ponto diante da vista. Ser\u00e1 o verdadeiro poder. <\/p>\n<p>&#8220;Ele saber\u00e1 a essa altura que o poder que vem buscando h\u00e1 tanto tempo \u00e9 seu, por fim. Pode fazer o que quiser com ele. Seu aliado est\u00e1 \u00e0s suas ordens. Seu desejo \u00e9 a ordem. V\u00ea tudo o que est\u00e1 em volta. Mas tamb\u00e9m encontrou seu terceiro inimigo: o Poder! <\/p>\n<p>&#8220;O poder \u00e9 o mais forte de todos os inimigos. E naturalmente a coisa mais f\u00e1cil \u00e9 ceder; afinal de contas, o homem \u00e9 realmente invenc\u00edvel. Ele comanda; come\u00e7a correndo riscos calculados e termina estabelecendo regras, porque \u00e9 um senhor. <\/p>\n<p>&#8220;Um homem nesse est\u00e1gio quase nem nota seu terceiro inimigo se aproximando. E de repente, sem saber, certamente ter\u00e1 perdido a batalha. Seu inimigo o ter\u00e1 transformado num homem cruel e caprichoso. <\/p>\n<p>&#8211; E ele perder\u00e1 o poder? <\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, ele nunca perder\u00e1 sua clareza nem seu poder. <\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o que o distinguir\u00e1 de um homem de conhecimento? <\/p>\n<p>&#8211; Um homem que \u00e9 derrotado pelo poder morre sem realmente saber manej\u00e1-lo. O poder \u00e9 apenas uma carga em seu destino. Um homem desses n\u00e3o tem poder sobre si, e n\u00e3o sabe quando ou como usar seu poder. <\/p>\n<p>&#8211; A derrota por algum desses inimigos \u00e9 uma derrota final? <\/p>\n<p>&#8211; Claro que \u00e9 final. Uma vez que esses inimigos dominem o homem, n\u00e3o h\u00e1 nada que ele possa fazer. <\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 poss\u00edvel, por exemplo, que o homem derrotado pelo poder veja seu erro e se emende? <\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Uma vez que o homem cede, est\u00e1 liquidado. <\/p>\n<p>&#8211; Mas, e se ele estiver temporariamente cego pelo poder, e depois o recusar? <\/p>\n<p>&#8211; Isso significa que a batalha continua. Isso significa que ele ainda est\u00e1 tentando ser um homem de conhecimento. O indiv\u00edduo \u00e9 derrotado quando n\u00e3o tenta mais e se abandona. <\/p>\n<p>&#8211; Mas ent\u00e3o, Dom Juan, ser\u00e1 poss\u00edvel que um homem se entregue ao medo durante anos, mas que no fim ele o ven\u00e7a. <\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Se ele ceder ao medo, nunca o vencer\u00e1, porque se desviar\u00e1 do conhecimento e nunca mais tentar\u00e1. Mas se procurar aprender durante anos no meio de seu medo, acabar\u00e1 dominando-o, porque nunca se entregou realmente a ele. <\/p>\n<p>&#8211; E como o homem pode vencer seu terceiro inimigo, Dom Juan? <\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m tem de desafi\u00e1-lo, propositadamente. Tem de vir a compreender que o poder que parece ter adquirido, na verdade nunca \u00e9 seu. Deve controlar-se em todas as ocasi\u00f5es, tratando com cuidado e lealdade tudo o que aprendeu. Se conseguir ver que a clareza e o poder, sem seu controle sobre si, s\u00e3o piores do que os erros, ele<br \/>\nchegar\u00e1 a um ponto em que tudo est\u00e1 controlado. Ent\u00e3o, saber\u00e1 como e quando usar seu poder. E assim ter\u00e1 derrotado seu terceiro inimigo. <\/p>\n<p>&#8220;O homem estar\u00e1, ent\u00e3o, no fim de sua jornada do saber, e quase sem perceber encontrar\u00e1 seu \u00faltimo inimigo: a Velhice! Este inimigo \u00e9 o mais cruel de todos, o \u00fanico que ele n\u00e3o conseguir\u00e1 derrotar completamente, mas apenas afastar. <\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 o momento em que o homem n\u00e3o tem mais receios, n\u00e3o tem mais impaci\u00eancias de clareza de esp\u00edrito&#8230; um momento em que todo seu poder est\u00e1 controlado, mas tamb\u00e9m um momento em que ele sente um desejo irresist\u00edvel de descansar. Se ele ceder completamente a seu desejo de se deitar e esquecer, se ele se afundar na fadiga, ter\u00e1<br \/>\nperdido o \u00faltimo round, e seu inimigo o reduzir\u00e1 a uma criatura velha e d\u00e9bil. Seu desejo de se retirar dominar\u00e1 toda sua clareza, seu poder e sabedoria. <\/p>\n<p>&#8220;Mas se o homem sacode sua fadiga, e vive seu destino completamente, ent\u00e3o poder\u00e1 ser chamado de um homem de conhecimento, nem que seja no breve momento em que ele consegue lutar contra o seu \u00faltimo momento invenc\u00edvel. Esse momento de clareza, poder e conhecimento \u00e9 o suficiente. <\/p>\n<p>Fim do Texto.<br \/>\nEste texto de Carlos Castaneda, \u00e9 um extrato do livro &#8220;A Erva do Diabo&#8221;, e fala sobre os inimigos naturais de qualquer homem que queira tornar-se s\u00e1bio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em nossas conversas, Dom Juan sempre usava ou se referia \u00e0 express\u00e3o &#8220;Homem de Conhecimento&#8221;, mas nunca explicava o que queria dizer com isso. 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