{"id":302,"date":"2017-04-26T09:56:58","date_gmt":"2017-04-26T12:56:58","guid":{"rendered":"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/?p=302"},"modified":"2022-05-28T19:52:34","modified_gmt":"2022-05-28T22:52:34","slug":"a-educacao-vista-por-confucio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/?p=302","title":{"rendered":"A Educa\u00e7\u00e3o vista por Conf\u00facio"},"content":{"rendered":"<p class=\"post-title entry-title\">Fonte:\u00a0http:\/\/sinografia.blogspot.com.br\/2007\/08\/a-educacao-vista-por-confucio.html<\/p>\n<div class=\"post-header\">Analisar o Confucionismo, enquanto teoria educacional, possui mais que um sentido hist\u00f3rico: de todos os sistemas pedag\u00f3gicos existentes, este provavelmente \u00e9 o mais antigo ainda em funcionamento, com mais de 2500 anos de experi\u00eancias acumuladas e em pleno processo de aplica\u00e7\u00e3o, desenvolvimento e adapta\u00e7\u00e3o aos dias atuais. Devemos igualmente prestar aten\u00e7\u00e3o a sua import\u00e2ncia, posto que esta \u00e9 a filosofia educacional que tem sustentado a sociedade chinesa atrav\u00e9s de s\u00e9culos, que impulsiona continuamente seu desenvolvimento e a forma\u00e7\u00e3o de sua consci\u00eancia cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Podemos ainda utilizar o confucionismo como um contraponto para as doutrinas educacionais Ocidentais, a fim de avaliar o quanto de nossas experi\u00eancias e propostas j\u00e1 foram pensadas, percebidas e testadas pelos chineses. N\u00e3o devemos nos enganar, a experi\u00eancia \u00e9 extremamente v\u00e1lida \u2013 afinal, importamos diversas teorias de Europa e dos Estados Unidos, porque n\u00e3o estudar uma experi\u00eancia asi\u00e1tica? N\u00e3o acredito, igualmente, no argumento de uma \u201cproximidade cultural\u201d (americana, francesa, etc) como referencial para estudo das teorias educacionais; se aceitarmos que estes sistemas s\u00e3o criados para os seres humanos, ent\u00e3o devemos aceitar, conseq\u00fcentemente, que em qualquer parte do mundo a experi\u00eancia de educar pode ser v\u00e1lida, se ela leva a forma\u00e7\u00e3o de uma sociedade melhor. Neste caso, portanto, a longa dura\u00e7\u00e3o da sociedade chinesa e sua incr\u00edvel capacidade de conserva\u00e7\u00e3o cultural s\u00e3o ind\u00edcios de que alguns pontos da proposta confucionista podem estar tecnicamente corretos.<\/p>\n<p>Assim sendo, desenvolveremos neste texto uma an\u00e1lise introdut\u00f3ria sobre o que era a educa\u00e7\u00e3o na vis\u00e3o de Conf\u00facio, e como tal abordagem ainda pode ser v\u00e1lida nos dia de hoje.<\/p>\n<p><strong>Conf\u00facio e o seu Contexto<\/strong><br \/>\nAs datas tradicionais da vida de Conf\u00facio (forma latinizada de Kong Fu Zi, ou Mestre Kong, em Chin\u00eas) situam seu per\u00edodo de vida entre 551 a 479 a.C., uma \u00e9poca conturbada na exist\u00eancia da civiliza\u00e7\u00e3o chinesa. Conf\u00facio parece ter tido uma distante origem nobre, mas viveu sempre como um simples professor e de forma bem pobre e modesta. Teria chegado a alcan\u00e7ar um cargo p\u00fablico de import\u00e2ncia, mas decidiu por se dedicar integralmente \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de sua escola filos\u00f3fica, abrindo m\u00e3o das vantagens e problemas da vida pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Conf\u00facio n\u00e3o se entendia, na verdade, como um inventor de novas propostas educacionais ou morais. De fato, ele acreditava apenas estar criando um m\u00e9todo para preservar o que havia de melhor na sociedade, propiciando os meios de faz\u00ea-la evoluir da melhor maneira poss\u00edvel, de forma harm\u00f4nica e saud\u00e1vel.<br \/>\nMas para entendermos o que o s\u00e1bio queria salvar, precisamos antes de tudo compreender o contexto da \u00e9poca. A China deste momento passava por uma s\u00e9rie de conturba\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais s\u00e9rias, derivadas de um incessante e crescente conflito entre os muitos pequenos reinos que compunham o imp\u00e9rio chin\u00eas. A dinastia reinante, os Zhou (1027 a 221 a.C.), estava perdendo gradualmente a capacidade de controlar as disputas entre os nobres da corte, o que permitia o acontecimento de guerras cont\u00ednuas, geradoras de fome, epidemias, corrup\u00e7\u00e3o e de um pessimismo generalizado sobre o futuro.<\/p>\n<p>Por conta disso, Conf\u00facio decidiu-se por encarar estes problemas de frente, e sua an\u00e1lise o levou a concluir que a quest\u00e3o principal da \u00e9poca centrava-se na perda dos valores morais, decorrentes de um processo educacional insuficiente para alcan\u00e7ar todos os extratos da sociedade, bem como incapaz de formar seres humanos conscientes. Seu foco principal tornou-se, pois, a quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o. O Mestre acreditava realmente no poder de educar para retificar a conduta das pessoas, e sua proposta extremamente pragm\u00e1tica indicava um caminho acess\u00edvel a todos para o reerguimento da sociedade.<br \/>\nNo que consistia, ent\u00e3o, o caminho proposto por Conf\u00facio? Vejamos, passo a passo, como este antigo s\u00e1bio chin\u00eas desenvolveu sua abordagem sobre o tema.<\/p>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/dao.gif\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-324\" src=\"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/dao-150x150.gif\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><\/strong><strong>Dao, a Via<\/strong><br \/>\nEm chin\u00eas, todas as escolas de pensamento (Jia) possuem uma f\u00f3rmula, m\u00e9todo ou via para se alcan\u00e7ar um objetivo proposto. Esta Via se chama Dao (tamb\u00e9m grifado como \u201cTao\u201d), que podemos traduzir ou compreender mais facilmente como um caminho racional para atingir a compreens\u00e3o da Realidade. Um problema pode ser abordado por v\u00e1rios \u00e2ngulos diferentes: do mesmo modo, pois, pode ser resolvido de modos diferentes. A preocupa\u00e7\u00e3o de Conf\u00facio foi, exatamente, de como pensar uma Via que atingisse e servisse a todos os seres humanos, e lhes propiciasse uma consci\u00eancia aproximada sobre o mesmo conjunto de valores morais importantes para a sobreviv\u00eancia da sociedade.<\/p>\n<p>O caminho escolhido por Conf\u00facio foi, justamente, o de educar. Sua teoria baseava-se na percep\u00e7\u00e3o das defici\u00eancias educacionais da \u00e9poca, incapazes de manter e transmitir o conhecimento moral e t\u00e9cnico existente. Tais dificuldades encontravam-se tanto na estrutura do ensino quanto no que era ensinado, e Conf\u00facio ainda destacava um terceiro ponto fundamental: qual a fun\u00e7\u00e3o de ensinar e aprender? Esta coloca\u00e7\u00e3o tinha um prop\u00f3sito inusitado na China daqueles tempos; educaremos para formar meros repetidores ou para formar pessoas conscientes e s\u00e1bias? At\u00e9 ent\u00e3o, apenas as pessoas com posses tinham acesso a uma educa\u00e7\u00e3o constante e erudita que, no entanto, n\u00e3o as impediam em ceder \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es da corrup\u00e7\u00e3o e do ego\u00edsmo. Do mesmo modo, muitas pessoas de origem humilde e educa\u00e7\u00e3o ruim ainda tentavam, de modo claudicante, agarrar-se a um modo de vida correto.<\/p>\n<p>Para Conf\u00facio, isso significava que a educa\u00e7\u00e3o, em seu cerne, trazia uma concep\u00e7\u00e3o de corre\u00e7\u00e3o adequada e necess\u00e1ria para toda a sociedade. Mesmo com pouca educa\u00e7\u00e3o, algu\u00e9m poderia se manter num modo de vida apropriado. Por\u00e9m, se mal aplicada ou desenvolvida, a educa\u00e7\u00e3o seria, por si s\u00f3, incapaz de resolver os problemas sociais e individuais. Logo, uma educa\u00e7\u00e3o incompleta sempre deixaria margem \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o \u00edntima do ser humano. Sem um sentido definido, a pr\u00e1tica de educar n\u00e3o tornaria as pessoas mais s\u00e1bias, mas apenas servas de um sistema sobre a qual ignoram as regras, levando-as a revolta em momentos de ang\u00fastia e conflito tal como ocorria na \u00e9poca.<br \/>\nEducar, pois, \u00e9 o caminho para modificar o mundo. Mas de que modo?<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/centralidade.gif\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-323\" src=\"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/centralidade-150x150.gif\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a> <a href=\"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/virtude.gif\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-328\" src=\"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/virtude-150x150.gif\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><\/strong><strong>A Centralidade (Zhong) e a Virtude (De)<\/strong><br \/>\nA educa\u00e7\u00e3o consistiria, antes de tudo, em atingir a Centralidade (Zhong), ou o fio condutor que amarra as experi\u00eancias humanas e que nos d\u00e3o a consci\u00eancia, justamente, de sermos humanos.<\/p>\n<p>Representada por um ideograma cujo significado \u00e9 o de uma flecha atravessando o meio de um alvo, a centralidade \u00e9, igualmente, o ponto em que percebemos o que h\u00e1 de comum entre todos n\u00f3s. Este ponto a ser atingido \u00e9 a excel\u00eancia na pr\u00e1tica de tudo aquilo que preserva a vida do ser humano, e do que o torna melhor. Tal condi\u00e7\u00e3o \u00e9 a Virtude (De), cujo ideograma tamb\u00e9m nos aponta uma id\u00e9ia concreta sobre o que Conf\u00facio queria propor. \u201cDe\u201d \u00e9 representado por uma jun\u00e7\u00e3o de tr\u00eas sinais gr\u00e1ficos que significam, juntos, \u201candar no caminho reto com o cora\u00e7\u00e3o\u201d, ou seja, alcan\u00e7ar um caminho que todos possam compartilhar baseado naquilo que h\u00e1 de mais adequado para a viv\u00eancia em sociedade.<\/p>\n<p>Ainda que as Virtudes possam ser apresentadas de modo dogm\u00e1tico numa sociedade, compreend\u00ea-las em sua ess\u00eancia permite ao ser humano discutir sua valia e faz\u00ea-las evoluir em sentido. O pr\u00f3prio Conf\u00facio percebeu, por exemplo, que vivia numa sociedade onde a habilidade na guerra era muito valorizada; mas se tal destacava-se justamente em momentos de conflito, melhor seria, pois, que seu valor fosse reduzido. Afinal, uma civiliza\u00e7\u00e3o repleta de her\u00f3is guerreiros significa, consequentemente, que ela est\u00e1 quase sempre em combate, e isso n\u00e3o \u00e9 bom para a sociedade como o um todo. Uma virtude n\u00e3o pode se sobrepor \u00e0s outras se ela traz um sofrimento maior. O ponto de vista confucionista entendia, portanto, que a pr\u00e1tica das virtudes deveria antes de tudo ser o guia, a meta, e o resultado de um certo esfor\u00e7o em preservar o que havia de melhor de um cultura, beneficiando o maior n\u00famero de pessoas poss\u00edveis.<\/p>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div><a href=\"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Shi_propensao.gif\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-326\" src=\"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Shi_propensao-150x150.gif\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><\/div>\n<p><strong>Shi, a Propens\u00e3o<\/strong><br \/>\nMas se as pessoas s\u00e3o diferentes umas das outras, como convenc\u00ea-las a praticar a Virtude e atingir a centralidade? Como foi dito, Conf\u00facio tinha a preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o criar uma educa\u00e7\u00e3o meramente repetidora, sem o que os indiv\u00edduos n\u00e3o poderiam realizar-se a si mesmos. A percep\u00e7\u00e3o da individualidade levou o Mestre a pensar n\u00e3o em anul\u00e1-la, mas sim em privilegi\u00e1-la nos seus melhores aspectos.<\/p>\n<p>Shi, ou propens\u00e3o (ou ainda, \u201cDom\u201d) \u00e9 aquela potencialidade criativa que uma pessoa tem em espec\u00edfico, e que deve ser desenvolvida para que ele possa encontrar a realiza\u00e7\u00e3o no que faz. Segundo o racioc\u00ednio confucionista, o conflito entre a tentativa de educar anulando a singularidade e a potencialidade \u00edntima dos seres humanos \u00e9 que levaria, fatalmente, a perda de um dos dois sentidos. Pessoas com um talento manifesto perderiam a alegria de viver, por exemplo, por n\u00e3o poderem realizar suas propens\u00f5es; da mesma maneira, aqueles que n\u00e3o vissem vantagem ou sentido em \u201cpensar igual a todos\u201d em breve sofreriam, transformando-se em \u201csubversivos\u201d, \u201cimorais\u201d ou ainda, tentariam tirar partido da situa\u00e7\u00e3o manipulando os outros em fun\u00e7\u00e3o de seus pr\u00f3prios interesses.<\/p>\n<p>O que Conf\u00facio propunha, portanto, \u00e9 que a educa\u00e7\u00e3o deveria primeiro despertar a potencialidade do educando, revelando aquilo ao qual ele seria mais propenso; em seguida, estimul\u00e1-lo a aperfei\u00e7oar suas habilidades de modo saud\u00e1vel e realizador; por fim, fazer com que o uso destas habilidades esteja de acordo com as regras necess\u00e1rias ao bom entendimento com o restante da sociedade \u2013 sem o que, a propens\u00e3o deixa de se tornar uma virtude para descambar num v\u00edcio ou num excesso, o que \u00e9 igualmente delet\u00e9rio ao que h\u00e1 de melhor em sua manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>As seis Artes Educativas<\/strong><br \/>\nNo intuito de despertar a propens\u00e3o que cada ser tem, a educa\u00e7\u00e3o confucionista propunha a pr\u00e1tica concomitante de seis tipos de habilidades espec\u00edficas na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. No decorrer dos anos, aquela que mais despertasse o interesse do estudante deveria ganhar uma \u00eanfase maior, de modo a lev\u00e1-lo a uma excel\u00eancia em sua pr\u00e1tica. Usualmente, estas artes s\u00e3o divididas em Arte Ritual, M\u00fasica, Caligrafia, Matem\u00e1tica, Arquearia e Cavalaria.<\/p>\n<p>A Arte Ritual consistia no estudo das pr\u00e1ticas de etiqueta, cerimonial, hist\u00f3ria e costumes sociais que abrangiam a sociedade. Tal como uma forma de sociologia, o estudo da ritual\u00edstica tinha por objetivo compreender de que modo os mecanismos sociais surgiram, desenvolveram-se e suas fun\u00e7\u00f5es fundamentais, permitindo uma an\u00e1lise s\u00e9ria das suas condi\u00e7\u00f5es de perman\u00eancia ou necessidades de mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>O estudo da M\u00fasica tratava de temas amplos, desde a constru\u00e7\u00e3o po\u00e9tica at\u00e9 a melodia, uso de instrumentos e o sentido filos\u00f3fico da m\u00fasica. Os chineses acreditavam seriamente no poder da musicalidade, capaz mesmo de despertar um sentido mais profundo de reflex\u00e3o sobre os aspectos da realidade.<\/p>\n<p>A Caligrafia privilegiava o sentido art\u00edstico atrav\u00e9s da pr\u00e1tica da escrita, da pintura e do desenvolvimento da percep\u00e7\u00e3o visual. Visava igualmente o aprimoramento da capacidade de express\u00e3o, atrav\u00e9s do emprego apropriado da palavra. Os chineses acreditavam firmemente na capacidade das palavras \u2013 escritas ou ditas \u2013 de despertarem no ser humano o sentimento e a sensa\u00e7\u00e3o das coisas nomeadas. Tal como a M\u00fasica, a Caligrafia atingiria o \u00edntimo n\u00e3o pelo som, mas pela imagem.<\/p>\n<p>Quanto a Matem\u00e1tica, ela visaria estudar e compreender o mundo por meio de sua quantifica\u00e7\u00e3o e pelo entendimento de suas leis de funcionamento. Neste sentido, a Matem\u00e1tica \u2013 no entendimento confucionista \u2013 se aproximaria tamb\u00e9m da F\u00edsica, e manteria conex\u00f5es poss\u00edveis com a Biologia e a Qu\u00edmica, pois seu estudo consistiria em analisar os padr\u00f5es pelos quais operaria a natureza, fixando-o atrav\u00e9s do uso das equa\u00e7\u00f5es, f\u00f3rmulas e indicadores num\u00e9ricos.<\/p>\n<p>Por fim, a Arquearia e a Cavalaria consistiriam no aprendizado do uso de armas, carruagens, pr\u00e1tica f\u00edsica e cultura corporal. Habilidades necess\u00e1rias em qualquer \u00e9poca, ainda assim, ambas as Artes tinham um significado especial para a proposta confucionista: primeiro, que n\u00e3o se pode aprender nada, devidamente, sem cultivar o corpo e a mente ao mesmo tempo; segundo, que o aprimoramento f\u00edsico atrav\u00e9s da consci\u00eancia corporal traz, igualmente, uma percep\u00e7\u00e3o mental sobre o processo de aprendizado. Conf\u00facio dizia que: \u201cA Arquearia \u00e9 como o s\u00e1bio; quando se erra o alvo, busca-se a raz\u00e3o em si mesmo\u201d.<\/p>\n<p>Podemos crer, portanto, que este conjunto de saberes visava ampliar, ao m\u00e1ximo, a possibilidade de auto-realiza\u00e7\u00e3o do estudante. Esta abordagem \u00e9 facilmente adapt\u00e1vel aos dias de hoje, posto que o desenvolvimento das ci\u00eancias aumentou ainda mais este leque de possibilidades.<\/p>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div><a href=\"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Xin.gif\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-329\" src=\"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Xin-150x150.gif\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><\/div>\n<p><strong>Xin, a Sinceridade Moral<\/strong><br \/>\nUm aluno devia dar prosseguimento aos seus estudos com afinco. No entanto, a dedica\u00e7\u00e3o n\u00e3o traz consigo nenhum sentido se n\u00e3o vier acompanhado de um real interesse de realiza\u00e7\u00e3o. Para despertar-se, portanto, um estudante deveria agir com Xin, ou Sinceridade Moral naquilo que buscasse e se dedicasse. O educador deveria propiciar ao aluno a consci\u00eancia de estar investido em si mesmo (da\u00ed a import\u00e2ncia do agir sinceramente). A sinceridade n\u00e3o \u00e9 apenas pessoal, \u00e9 tamb\u00e9m moral; ela vincula-se a decis\u00e3o sobre o futuro, sobre a possibilidade de ser feliz e de auto-realiza\u00e7\u00e3o. Sem essa mentalidade, o aluno engana a si pr\u00f3prio e tudo ser-lhe-\u00e1 mais dif\u00edcil; e n\u00e3o porque algu\u00e9m lhe obriga a fazer algo, mas porque ele mesmo ser\u00e1 incapaz de fazer qualquer coisa sem saber no que \u00e9 bom.<\/p>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Shue.gif\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-327\" src=\"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Shue-150x150.gif\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a> <a href=\"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Zhi.gif\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-330\" src=\"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Zhi-150x150.gif\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Xue (Conhecimento Transmitido) e Zhi (Experi\u00eancia)<\/strong><br \/>\nDois tipos de conhecimento um estudante ir\u00e1 adquirir no seu processo educativo: aquele que foi acumulado e transmitido por seus antecessores (Xue), e aquele que ele mesmo ir\u00e1 aprender em suas experi\u00eancias pessoais (Zhi). Os ideogramas chineses novamente s\u00e3o claros neste ponto: Xue \u00e9 a adapta\u00e7\u00e3o da imagem de uma m\u00e3o que conduz uma crian\u00e7a, enquanto Zhi representa uma flecha em dire\u00e7\u00e3o a um alvo (ou seja, a experi\u00eancia adquirida atrav\u00e9s do esfor\u00e7o e do treino).?<\/p>\n<p>Para Conf\u00facio, no entanto, ambos os conhecimentos se alimentam reciprocamente, permitindo-se evoluir um ao outro, de acordo com a necessidade e com uma an\u00e1lise cr\u00edtica s\u00e9ria e profunda. Quando ambos os conhecimentos se harmonizam, atingimos a justa medida (ou justa centralidade, Zhong Yong) que significam que conseguimos encontrar o ponto certo entre os nossos interesses pessoais de acordo (e n\u00e3o contra) a sociedade. Conseguimos nos realizar, e da maneira adequada, sem perturbar a ordem do mundo \u2013 e sem sermos perturbados por ela.<\/p>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/ren.gif\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-325\" src=\"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/ren-150x150.gif\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Ren, o Humanismo<\/strong><br \/>\nA plena realiza\u00e7\u00e3o do Ser humano se encontraria na sua perfeita conviv\u00eancia, pois, com os outros seres. Este aspecto fundamental da doutrina de Conf\u00facio, Ren, \u00e9 o que podemos traduzir como Humanismo. Aquele que foi educado corretamente, realiza-se. Realizando-se, harmoniza-se com o restante da sociedade (mesmo que essa n\u00e3o tenha, em sua maioria, conseguido evoluir profundamente). Torna-se um s\u00e1bio (Sheng), que d\u00e1 continuidade a vida, que mant\u00e9m \u2013 e ao mesmo tempo transforma, quando necess\u00e1rio \u2013 a estrutura da sociedade. E para Conf\u00facio, todos poderiam ser s\u00e1bios. Devido \u00e0 ilus\u00e3o derivada da ignor\u00e2ncia, causadora de uma crise social e cultural sem precedentes, as pessoas teriam perdido a capacidade de acreditar na possibilidade de mudar seus destinos. Conf\u00facio n\u00e3o s\u00f3 confiava que isso poderia ser mudado como ainda, indicava o caminho. Esta perspectiva otimista deu sustento e alimentou, indefinidamente, a cren\u00e7a confucionista em poder modificar o destino do mundo atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o. Como ele mesmo afirmou,<\/p>\n<p>\u201cAo ensinar, o Mestre orienta seus alunos sem arrast\u00e1-los; convida-os a avan\u00e7ar mas n\u00e3o os coage; abre-lhes caminhos mas n\u00e3o os for\u00e7a a caminhar. Orientando sem arrastar, torna o aprendizado agrad\u00e1vel; convidando sem coagir, torna o aprendizado f\u00e1cil; abrindo caminho sem for\u00e7ar a caminhada, faz com que seus alunos pensem por si mesmos. Ora, algu\u00e9m que torne agrad\u00e1vel e f\u00e1cil o aprendizado, e faz com que os estudantes pensem por si mesmos ser\u00e1 o que se pode chamar de um bom professor\u201d. (Liji \u2013 Recorda\u00e7\u00f5es dos Rituais, 18)<\/p>\n<p>Pois<\/p>\n<p>\u201cO S\u00e1bio \u00e9 sem ideia, sem necessidade, sem posi\u00e7\u00e3o e sem eu\u201d (Lunyu \u2013 As Conversa\u00e7\u00f5es, 9)<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 na Antiguidade, a clareza e profundidade da exposi\u00e7\u00e3o confucionista sobre a quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o influenciou diretamente a mentalidade chinesa sobre a import\u00e2ncia do estudo na manuten\u00e7\u00e3o dos valores culturais e na sobreviv\u00eancia da sociedade. Durante a Dinastia Han (206 a.C. \u2013 220 d.C.), o confucionismo foi adotado como doutrina oficial do governo, estimulando a cria\u00e7\u00e3o de todo um sistema educativo no pa\u00eds. Ao longo da hist\u00f3ria, desenvolveram-se tamb\u00e9m os \u201cExames Oficiais\u201d, provas realizadas anualmente para a entrada no funcionalismo p\u00fablico e acesso as academias imperiais (semelhantes as nossas universidades). Em meio a todas as crises que se repetiram na hist\u00f3ria chinesa, a ideia do confucionismo nunca foi abandonada. Na era moderna, ap\u00f3s o governo de Maozedong, o confucionismo tem sido retomado como \u00e9tica educacional, ap\u00f3s uma breve persegui\u00e7\u00e3o realizada pelo comunismo. Qualquer chin\u00eas comum, at\u00e9 hoje, tem orgulho de ver seus filhos na escola, venera os livros e valoriza de modo singular o dom\u00ednio de uma escrita e uma l\u00edngua que ele sabe ser milenar, o idioma de sua cultura.<\/p>\n<p>Tal perspectiva que tem conduzido os chineses por mil\u00eanios em meio a todos os problemas que afetaram sua sociedade. Na \u00f3tica confucionista, os melhores per\u00edodos da hist\u00f3ria chinesa est\u00e3o ligados \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do povo \u2013 e os piores, a aus\u00eancia dessa educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O modelo chin\u00eas, portanto, \u00e9 fundamental para avaliarmos esta experi\u00eancia \u00fanica no campo da educa\u00e7\u00e3o, e nos servir de apan\u00e1gio na cren\u00e7a de que educar ainda \u00e9 a melhor op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><br \/>\nSeguem aqui apenas algumas sugest\u00f5es bibliogr\u00e1ficas, n\u00e3o muito extensas, para os que desejarem saber mais sobre o Confucionismo e a quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nConf\u00facio Di\u00e1logos de Conf\u00facio. S\u00e3o Paulo: Ibrasa, 1983. Tradu\u00e7\u00e3o excelente e com bons coment\u00e1rios da sin\u00f3logoa Anne Cheng.<br \/>\nDoeblin, A. O Pensamento vivo de Conf\u00facio. S\u00e3o Paulo, 1958. Livro b\u00e1sico e antigo, mas f\u00e1cil de achar, com uma boa exposi\u00e7\u00e3o sobre Conf\u00facio.<br \/>\nJullien, F. Um s\u00e1bio n\u00e3o tem ideia. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2000. Texto denso e profundo sobre a filosofia confucionista do fil\u00f3sofo Fran\u00e7ois Jullien.<br \/>\nLin Yutang A Sabedoria de Conf\u00facio. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 1958. Nesse texto, encontraremos o cap\u00edtulo sobre educa\u00e7\u00e3o do Liji, Manual dos Rituais, pe\u00e7a fundamental para compreender o pensamento confucionista sobre o tema. Este texto tamb\u00e9m est\u00e1 dispon\u00edvel no site http:\/\/chines-classico.blogspot.com<br \/>\nYao Xinzhong, El confucianismo. Cambridge University Press, Madrid, 2001. \u00d3tima introdu\u00e7\u00e3o em espanhol ao confucionismo.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fonte:\u00a0http:\/\/sinografia.blogspot.com.br\/2007\/08\/a-educacao-vista-por-confucio.html Analisar o Confucionismo, enquanto teoria educacional, possui mais que um sentido hist\u00f3rico: de todos os sistemas pedag\u00f3gicos existentes, este provavelmente \u00e9 o mais antigo ainda em funcionamento, com mais de 2500 anos de experi\u00eancias acumuladas e em pleno processo de aplica\u00e7\u00e3o, desenvolvimento e adapta\u00e7\u00e3o aos dias atuais. 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