{"id":339,"date":"2015-04-14T11:13:00","date_gmt":"2015-04-14T14:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/?p=339"},"modified":"2024-11-13T14:37:32","modified_gmt":"2024-11-13T17:37:32","slug":"disfarces-inventario-pessoal-e-lugar-de-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/grimorio.cih.org.br\/?p=339","title":{"rendered":"Disfarces, Invent\u00e1rio Pessoal e Lugar de Poder"},"content":{"rendered":"\n<p>\u2014 Vou mostrar uma coisa a voc\u00eas \u2014 disse Dom Juan, com naturalidade, depois que os rapazes pararam de rir.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu palpite era de que ele nos mostraria alguns objetos de poder que tivesse na sacola. Por um momento, achei que os rapazes se agrupariam em volta dele, pois fizeram um movimento repentino juntos. Todos se inclinaram ligeiramente para a frente, como se fossem se levantar, mas, ent\u00e3o, todos meteram a perna esquerda debaixo do assento, naquela posi\u00e7\u00e3o misteriosa que tanto machucava meus joelhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfiei a perna debaixo de mim com a naturalidade poss\u00edvel. Vi que, se eu n\u00e3o me sentasse sobre o p\u00e9 esquerdo, isto \u00e9, se ficasse numa posi\u00e7\u00e3o semi-ajoelhada, meus joelhos n\u00e3o do\u00edam tanto.<\/p>\n\n\n\n<p>Dom Juan levantou-se e deu a volta \u00e0 pedra grande, at\u00e9 sumir de vista. Ele devia ter alimentado o fogo antes de se levantar, enquanto eu estava ajeitando a perna, pois a lenha nova estalava ao se acender e chamas compridas surgiram. O efeito era extremamente dram\u00e1tico. As chamas dobraram de tamanho. De repente, Dom Juan apareceu por detr\u00e1s da pedra e ficou de p\u00e9 onde tinha estado sentado. Tive um momento de perplexidade. Dom Juan havia colocado um esquisito chap\u00e9u preto. O objeto tinha bicos dos lados, junto das orelhas, e era redondo em cima. Ocorreu-me que, na verdade, era um chap\u00e9u de pirata. Ele vestia um casaco comprido, preto, de abas como fraque, preso por um \u00fanico bot\u00e3o met\u00e1lico reluzente, e tinha uma perna de pau. Ri comigo mesmo. Dom Juan parecia um bobo em sua fantasia de pirata. Comecei a pensar onde teria arranjado aquela indument\u00e1ria ali no mato. Supus que devia estar escondida atr\u00e1s da pedra. Comentei comigo mesmo que a Dom Juan s\u00f3 faltava uma venda num olho e um papagaio no ombro para parecer o pr\u00f3prio pirata.<\/p>\n\n\n\n<p>Dom Juan olhou para todos os membros do grupo, varrendo os olhos lentamente da direita para a esquerda. Depois, olhou para cima de n\u00f3s, para a escurid\u00e3o. Ficou naquela posi\u00e7\u00e3o por um momento; depois, voltou para tr\u00e1s da pedra e desapareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o reparei como ele caminhava. Obviamente, devia estar com o joelho dobrado, para poder aparentar um homem de perna de pau; quando se virou para dar a volta \u00e0 pedra, eu devia ter visto a perna dobrada, mas eu estava t\u00e3o intrigado com os atos dele que n\u00e3o prestei aten\u00e7\u00e3o aos detalhes.<\/p>\n\n\n\n<p>As chamas perderam sua for\u00e7a no momento mesmo em que Dom Juan foi para tr\u00e1s da pedra. Achei que sua coordena\u00e7\u00e3o tinha sido magn\u00edfica; ele devia ter calculado quanto tempo levaria para arder a lenha que tinha acrescentado \u00e0 fogueira, arrumando o aparecimento e sa\u00edda de acordo com esse c\u00e1lculo.<\/p>\n\n\n\n<p>A mudan\u00e7a na intensidade do fogo foi muito dram\u00e1tica para o grupo; houve uma onda de nervosismo entre os rapazes. Quando as chamas diminu\u00edram de tamanho, os rapazes voltaram juntos a uma posi\u00e7\u00e3o de pernas cruzadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu esperava que Dom Juan sa\u00edsse de detr\u00e1s da pedra logo e se sentasse, mas ele n\u00e3o apareceu. Ficou escondido. Esperei, impaciente. Os rapazes estavam sentados, com uma express\u00e3o impass\u00edvel nas fisionomias.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o conseguia entender o que Dom Juan pretendia com toda aquela farsa. Depois de esperar por muito tempo, virei-me para o rapaz \u00e0 minha direita e perguntei-lhe, em voz baixa, se alguma das pe\u00e7as que Dom Juan vestira \u2014 o chap\u00e9u engra\u00e7ado e o fraque comprido \u2014 e o fato<\/p>\n\n\n\n<p>de ele estar numa perna de pau tinham algum significado para ele.<\/p>\n\n\n\n<p>O rapaz olhou para mim com uma express\u00e3o vazia e esquisita. Parecia estar confuso. Repeti minha pergunta e o outro rapaz ao lado dele olhou bem para mim, tentando ouvir.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles se olharam, aparentemente na maior confus\u00e3o. Falei que, a meu ver, o chap\u00e9u, a perua de pau e o fraque faziam dele um pirata.<\/p>\n\n\n\n<p>A essa altura os quatro rapazes tinham-se juntado em volta de mim. Riram baixinho e se remexeram, nervosos. Davam a impress\u00e3o de n\u00e3o encontrar palavras. Por fim, o mais ousado deles falou comigo. Disse que Dom Juan n\u00e3o estava de chap\u00e9u, nem de casaco comprido e, certamente, n\u00e3o usava perna de pau, e sim portava um capucho ou xale preto na cabe\u00e7a e uma t\u00fanica preta retinta, como a de um frade, que lhe ia at\u00e9 os p\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o! \u2014 exclamou baixinho outro dos rapazes, \u2014 Ele n\u00e3o tinha capucho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso mesmo \u2014 disseram os outros.<\/p>\n\n\n\n<p>O rapaz que tinha, falado primeiro olhou para mim com uma express\u00e3o de incredulidade total.<\/p>\n\n\n\n<p>Afirmei que t\u00ednhamos de passar em revista o que havia acontecido, com muito cuidado e calma, e que tinha certeza de que Dom Juan queria que o fiz\u00e9ssemos, e por isso nos deixara a s\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>O rapaz \u00e0 minha extrema direita disse que Dom Juan estava de andrajos. Tinha vestido um poncho todo rasgado, ou algum tipo de casaco de \u00edndio e um <em>sombrero<\/em> muito surrado. Segurava uma cesta cheia de coisas, mas ele n\u00e3o tinha certeza de que objetos eram. Acrescentou que Dom Juan n\u00e3o estava propriamente vestido de mendigo, e sim como um homem voltando de uma viagem intermin\u00e1vel, carregado de coisas estranhas.<\/p>\n\n\n\n<p>O rapaz que vira Dom Juan com um capucho preto disse que ele n\u00e3o tinha nada nas m\u00e3os, mas que seus cabelos estavam compridos e revoltos, como se ele fosse um louco que acabasse de matar um frade e tivesse vestido as roupas dele, por\u00e9m sem conseguir esconder sua loucura.<\/p>\n\n\n\n<p>O rapaz \u00e0 minha esquerda deu uma risadinha e comentou como tudo era estranho. Disse que Dom Juan estava vestido como um homem importante que acabava de desmontar do cavalo. Tinha perneiras de como para montaria, grandes esporas, um chicote com que batia em sua palma esquerda, um chap\u00e9u chihuahua de copa c\u00f4nica e duas pistolas autom\u00e1ticas, calibre 45. Afirmou que Dom Juan era a imagem de um <em>ranchero<\/em> abastado.<\/p>\n\n\n\n<p>O rapaz \u00e0 minha extrema esquerda riu, encabulado, e n\u00e3o se ofereceu para revelar o que vira. Pedi que o fizesse, mas os outros n\u00e3o se mostraram interessados. Ele parecia muito encabulado para falar.<\/p>\n\n\n\n<p>O fogo j\u00e1 se ia apagando, quando Dom Juan saiu de detr\u00e1s da pedra.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Acho melhor deixarmos os rapazes trabalharem \u2014 disse ele. \u2014 Despe\u00e7a-se deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Dom Juan n\u00e3o olhou para eles. Come\u00e7ou a caminhar devagar, para me dar tempo de me despedir. Os rapazes me abra\u00e7aram.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o havia chamas no fogo, mas as brasas refletiam bastante claridade. Dom Juan parecia uma sombra negra a pouca dist\u00e2ncia, e os rapazes eram um c\u00edrculo de silhuetas est\u00e1ticas, bem definidas. Eram como uma fila de est\u00e1tuas negras retintas, num fundo escuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi ent\u00e3o que o fato total teve um impacto sobre mim. Senti um calafrio na espinha. Aproximei-me de Dom Juan. Determinou, num tom de grande urg\u00eancia, que eu n\u00e3o me virasse para olhar para os rapazes, pois, naquele momento, eram um c\u00edrculo de sombras.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu est\u00f4mago sentiu uma for\u00e7a vindo de fora. Era como se uma m\u00e3o me tivesse agarrado. Dei um grito, sem querer. Dom Juan cochichou que havia tanto poder naquele lugar que seria muito f\u00e1cil que eu utilizasse o \u201cpasso do poder\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Andamos aceleradamente durante horas. Ca\u00ed cinco vezes. Dom Juan contava em voz alta cada vez que eu me desequilibrava. Depois parou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sente-se, escolha-se junto das pedras e cubra sua barriga com as m\u00e3os \u2014 cochichou, em meu ouvido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Domingo, 15 de abril de 1962<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Assim que houve luz suficiente de manh\u00e3, come\u00e7amos a caminhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Dom Juan guiou-me para o lugar em que eu havia deixado o carro. Sentia fome, mas, quanto ao resto, estava revigorado e repousado.<\/p>\n\n\n\n<p>Comemos umas bolachas e bebemos \u00e1gua mineral que eu tinha no carro. Eu queria fazer umas perguntas, que me estavam preocupando, mas ele levou um dedo aos l\u00e1bios.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio da tarde, est\u00e1vamos na cidade de fronteira onde ele queria que eu o deixasse. Fomos almo\u00e7ar num restaurante. O lugar estava vazio; sentamos a uma mesa junto de uma janela que dava para a rua principal, movimentada, e pedimos a refei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Dom Juan parecia estar descansado; seus olhos reluziam com um brilho malicioso. Senti-me encorajado e comecei uma barragem de perguntas. Sobretudo, queria saber a respeito da fantasia dele. <\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu lhes mostrei um pouco do meu &#8220;n\u00e3o fazer&#8221; \u2014 disse ele, e seus olhos pareciam brilhar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas nenhum de n\u00f3s viu o mesmo disfarce \u2014 retruquei. \u2014 Como foi que voc\u00ea conseguiu isso?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 tudo muito simples \u2014 respondeu. \u2014 S\u00f3 eram disfarces, pois tudo o que fazemos \u00e9, de certo modo, apenas um disfarce. Tudo o que fazemos, como j\u00e1 lhe disse, \u00e9 uma quest\u00e3o de fazer. Um homem de conhecimento poderia ligar-se ao fazer de qualquer pessoa e aparecer com coisas estranhas. Mas n\u00e3o s\u00e3o estranhas, n\u00e3o realmente. S\u00f3 s\u00e3o estranhas para aqueles que est\u00e3o presos no fazer. Aqueles quatro rapazes e voc\u00ea ainda n\u00e3o est\u00e3o cientes do &#8220;n\u00e3o fazer&#8221;, de modo que foi f\u00e1cil lograr voc\u00eas todos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como \u00e9 que nos logrou?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o adianta explicar. N\u00e3o h\u00e1 meio de voc\u00ea entender.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Experimente, Dom Juan, por favor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Digamos que, quando cada um de n\u00f3s nasce, traz consigo um circulozinho de poder. Esse pequeno c\u00edrculo \u00e9 posto em uso quase que imediatamente. Assim, cada um de n\u00f3s j\u00e1 est\u00e1 preso desde que nasce e os nossos c\u00edrculos de poder s\u00e3o ligados aos de todos os outros. Em outras palavras, os nossos c\u00edrculos de poder s\u00e3o ligados ao fazer do mundo a fim de formar o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 D\u00ea um exemplo que eu possa entender.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por exemplo, nossos c\u00edrculos de poder, o seu e o meu, est\u00e3o ligados neste momento ao fazer esta sala. Estamos formando esta sala.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossos c\u00edrculos de poder est\u00e3o girando e formando esta sala neste momento mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Espere, espere \u2014 disse eu. \u2014 Esta sala est\u00e1 aqui sozinha. N\u00e3o a estou criando. N\u00e3o tenho nada a ver com ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Dom Juan n\u00e3o parecia estar interessado em meu protesto. Assegurou calmamente que a sala em que est\u00e1vamos era criada e conservada no lugar por causa da for\u00e7a do c\u00edrculo de poder de todos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Entende, \u2014 continuou \u2014 cada um de n\u00f3s conhece o fazer de salas porque, de uma maneira ou de outra, j\u00e1 passamos grande parte de nossas vidas nas salas. Um homem de conhecimento, por outro lado, desenvolve outro c\u00edrculo de poder. Eu o chamaria &#8220;o c\u00edrculo de n\u00e3o fazer&#8221;, pois \u00e9 ligado a &#8220;n\u00e3o fazer&#8221;. Com esse c\u00edrculo, portanto, ele pode fazer girar outro mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma jovem gar\u00e7onete trouxe a comida e pareceu estar meio desconfiada a nosso respeito. Dom Juan disse que eu deveria lhe pagar para mostrar que tinha dinheiro suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ela n\u00e3o tem culpa de n\u00e3o confiar em voc\u00ea \u2014 falou, dando uma gargalhada. \u2014 Voc\u00ea est\u00e1 com uma cara dos diabos.<\/p>\n\n\n\n<p>Paguei \u00e0 mulher e dei-lhe uma gorjeta e, quando ela nos deixou sozinhos, olhei para Dom Juan, procurando um meio de pegar de novo o fio da conversa. Ele me ajudou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O problema com voc\u00ea \u00e9 que ainda n\u00e3o desenvolveu seu c\u00edrculo de poder extra e seu corpo n\u00e3o conhece o &#8220;n\u00e3o fazer&#8221; \u2014 disse ele, N\u00e3o entendi o que ele disse. Minha mente estava fixa numa preocupa\u00e7\u00e3o prosaica. Eu s\u00f3 queria saber se ele tinha ou n\u00e3o vestido a roupa de pirata.<\/p>\n\n\n\n<p>Dom Juan n\u00e3o respondeu, mas riu bastante. Pedi que ele explicasse.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas acabei de lhe explicar \u2014 retrucou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quer dizer que n\u00e3o vestiu nenhuma fantasia? \u2014 perguntei,<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 S\u00f3 o que fiz foi ligar meu c\u00edrculo de poder a seu pr\u00f3prio fazer. Voc\u00ea mesmo fez o resto e os outros tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas \u00e9 incr\u00edvel!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00f3s todos fomos ensinados a concordar sobre fazer \u2014 disse ele baixinho. \u2014 Voc\u00ea n\u00e3o tem ideia do poder que essa concord\u00e2ncia acarreta.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, felizmente, n\u00e3o fazer \u00e9 igualmente milagroso e poderoso. Senti um tremor incontrol\u00e1vel em meu est\u00f4mago. Havia um abismo intranspon\u00edvel entre minha experi\u00eancia de primeira m\u00e3o e a explica\u00e7\u00e3o dele. Como \u00faltima defesa, terminei, como sempre, com uma nuvem de<\/p>\n\n\n\n<p>d\u00favida e desconfian\u00e7a, e com a pergunta; \u201c<em>E se Dom Juan estivesse realmente mancomunado com os rapazes e tivesse preparado tudo aquilo?<\/em>\u201d Mudei de assunto e perguntei a respeito dos quatro aprendizes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea me disse que eles eram sombras?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eram aliados?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o. Eram aprendizes de um homem que eu conhe\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por que os chamou de sombras?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Porque, naquele momento, eles tinham sido tocados pelo poder de n\u00e3o fazer e, como n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o burros quanto voc\u00ea, transformaram-se em coisa muito diferente do que voc\u00ea conhece. N\u00e3o quis que olhasse para eles por este motivo. S\u00f3 lhe teria prejudicado.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o tinha mais perguntas. Nem estava com fome. Dom Juan comeu com vontade e parecia estar de \u00f3timo humor, mas eu estava deprimido. De repente, um cansa\u00e7o tremendo se apossou de mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Compreendi que o caminho de Dom Juan era penoso demais para mim. Comentei que eu n\u00e3o tinha as qualifica\u00e7\u00f5es para me tornar feiticeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Talvez mais um encontro com Mescalito o ajude \u2014 falou. Repliquei que isso era a \u00faltima coisa em que eu pensaria, e que nem sequer consideraria a possibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Coisas muito dr\u00e1sticas t\u00eam de lhe acontecer para que voc\u00ea permita que seu corpo aproveite tudo o que aprendeu \u2014 disse ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Apresentei a opini\u00e3o de que, como eu n\u00e3o era \u00edndio, n\u00e3o estava realmente qualificado a viver-a-vida incomum do feiticeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Talvez, se conseguisse livrar-me de todos meus compromissos, eu me desse um pouco melhor no meu mundo \u2014 falei. \u2014 Ou se eu fosse para o sert\u00e3o em sua companhia e vivesse l\u00e1. Assim como estamos agora, o fato de eu estar com um p\u00e9 em cada mundo me torna in\u00fatil em ambos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele ficou olhando para mim por muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Seu mundo \u00e9 aquele \u2014 disse ele, apontando para a rua movimentada do lado de fora da janela. \u2014 Voc\u00ea \u00e9 um homem daquele mundo. E l\u00e1, naquele mundo, \u00e9 o lugar de voc\u00ea ca\u00e7ar. N\u00e3o h\u00e1 meio de se escapar do fazer de nosso mundo, pois o que um guerreiro faz \u00e9 transformar seu mundo em seu terreno de ca\u00e7ada. Como ca\u00e7ador, um guerreiro sabe que o mundo foi feito para sei usado. Portanto, usa cada pedacinho dele. Um guerreiro \u00e9 como um pirata que n\u00e3o tem d\u00favidas em pegar e usar o que quiser, s\u00f3 que o guerreiro n\u00e3o se importa, nem se sente insultado, quando \u00e9 utilizado e apanhado ele mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; <em>Carlos Casta<\/em><em>\u00f1<\/em><em>eda<\/em>, <strong>Viagem a Ixtlan<\/strong>, 1972, Ed. Record.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2014 Vou mostrar uma coisa a voc\u00eas \u2014 disse Dom Juan, com naturalidade, depois que os rapazes pararam de rir. Meu palpite era de que ele nos mostraria alguns objetos de poder que tivesse na sacola. 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